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ENTRE LINHAS

De volta ao passado: por que a redução de estrangeiros é um tiro no pé do futebol brasileiro

Sob o pretexto de dar espaço aos atletas locais, CBF e clubes aprovam retrocesso gradual no limite de estrangeiros a partir de 2027.

Publicado em 22/09/2026 às 9:43

Com a justificativa de abrir mais espaço para atletas nacionais, a CBF apresentou uma proposta — aprovada pela maioria dos clubes — para reduzir o limite de jogadores estrangeiros relacionados por partida no Brasil. A mudança entrará em vigor em 2027 e será gradual, caindo dos atuais nove relacionados para apenas cinco até 2030. Essa medida protecionista, contudo, é um retrocesso que não resolverá a crise de formação do nosso futebol e ainda fortalecerá nossos concorrentes sul-americanos.

Primeiramente, é preciso pontuar o óbvio: a CBF não possui um projeto nacional de base. A atuação da entidade limita-se a promover torneios nacionais e convocar atletas para as seleções juvenis. Falta um trabalho amplo, descentralizado pelas regiões do país, feito em real parceria com as agremiações.


					De volta ao passado: por que a redução de estrangeiros é um tiro no pé do futebol brasileiro
Nomes como Flaco López, destaque do futebol brasileiro em 2026, podem perder espaço no país. (Foto: Fernando Mendes/RP FOTOPRESS/AGIF)

Além disso, os principais clubes das ligas mais fortes do planeta são compostos, em sua maioria, por estrangeiros. A Premier League inglesa é o maior exemplo disso. A liga mais rica do mundo é repleta de atletas de fora — inclusive brasileiros —, e isso nunca impediu a Inglaterra de produzir grandes talentos.

Por sinal, o English Team vive uma excelente safra técnica, mesmo dividindo espaço com astros globais em seu território. E o time nacional sempre foi um fracasso retumbante, independente de estrangeiros na liga.

Outro espelho é o futebol espanhol, recentemente coroado bicampeão do mundo. Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid têm elencos majoritariamente internacionais. O atacante Raphinha, por sinal, é o grande destaque do Barça e sensação deste início de temporada na Europa.

Essa abertura de mercado não afeta o rendimento da seleção espanhola, que colhe os frutos de um modelo de jogo consolidado há décadas nas categorias de base.


					De volta ao passado: por que a redução de estrangeiros é um tiro no pé do futebol brasileiro
Raphinha tem início de temporada avassalador no Barcelona, certamente "ocupando" o espaço de um talento espanhol no time. (Foto: Albert Gea/Reuters)

Trazendo para a nossa realidade, o mercado brasileiro hoje domina o futebol da América do Sul. A nossa disparidade financeira se reflete na supremacia recente na Copa Libertadores. Na Copa Sul-Americana, as equipes do Brasil também são presença constante nas decisões. Reduzir o número de estrangeiros é abrir mão voluntariamente de peças que qualificam tecnicamente o nosso ecossistema esportivo.

E engana-se quem pensa que apenas os gigantes se beneficiam desse mercado. A campanha de recuperação do Vasco na atual temporada, por exemplo, deve-se diretamente ao acerto do clube em garimpar bons valores estrangeiros para encorpar o elenco.

A medida aprovada é simplista e mascara o real problema com o qual o futebol brasileiro convive. O jogador nativo de real qualidade sempre terá espaço. O verdadeiro gargalo do país está na saída precoce de jovens talentos para o exterior.

Se a preocupação fosse real, o debate deveria ser sobre como criar mecanismos financeiros para segurar os jovens talentos no país pelo menos até os 20 anos. O amadurecimento técnico desses atletas em solo nacional fortaleceria o nosso campeonato e elevaria o nível da liga. Mas, obviamente, isso exigiria engenharia financeira e planejamento, caminhos mais complexos do que a mera canetada protecionista.


					De volta ao passado: por que a redução de estrangeiros é um tiro no pé do futebol brasileiro
Sem espaço no Chelsea de Xabi Alonso, Estevão seria unanimidade no Palmeiras atual. (Foto: Catherine Ivill/AMA/Getty Images)

Votar pela asfixia do mercado estrangeiro é atirar no próprio pé. Enquanto os clubes brasileiros aceitam o próprio enfraquecimento, os europeus seguirão dominando o topo do futebol mundial. Cabe à CBF, junto aos clubes, aperfeiçoar a captação e formação de novos atletas. Em um país extremamente resultadista, no entanto, o tempo para lapidar talentos é sempre interrompido pela pressa da vitória imediata.

A partir de 2027, a tendência é observarmos o enfraquecimento técnico dos clubes do país no cenário continental. Quanto à seleção brasileira... essa segue sem um horizonte claro de evolução, como a própria campanha na Copa do Mundo de 2026 já deixou evidente.

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Cisco Nobre

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