CONVERSA POLÍTICA
Flávio fugiu, abandonou 60 milhões de eleitores e narrativa de perseguição é para convertidos
Devia ficar pra provar a inocência. Tem apoio popular, Congresso nas mãos, antipetismo e antilulismo vivos, sentimento de mudança forte.
Publicado em 28/10/2026 às 10:57 | Atualizado em 28/10/2026 às 11:57

Os deputados paraibanos Cabo Gilberto (federal), Nilvan Ferreira, Walber Virgolino e Fábio Lopes (estaduais) abraçaram a narrativa de que Flávio Bolsonaro está sendo perseguido politicamente e, por isso, foi para os Estados Unidos após a derrota eleitoral do último domingo. Balela. Surfam nesse discurso para manter vivo o fanatismo cego de parte de seus eleitores e transformar qualquer questionamento em perseguição.
Flávio virou as costas para a Justiça, que pode e deve ser questionada, e para os quase 60 milhões de eleitores que acreditaram que o 01, ganhando ou perdendo a eleição, encabeçaria um projeto de mudança.
Deveria ficar no Brasil para provar sua inocência. Tem apoio popular, um Congresso com forte presença da oposição, antipetismo e antilulismo ainda vivos, além de um sentimento de mudança que segue forte. Há também um governo que não conseguiu oferecer esperança a parcelas das classes C e D e um STF cuja credibilidade é alvo de questionamentos.
E mais: Flávio conta com três parentes no Congresso Nacional: dois irmãos e uma madrasta. Um cenário que oferece espaço político de sobra para fazer oposição, defender mudanças e barrar projetos do governo.
Mas Flávio parece ter colocado os próprios interesses acima da responsabilidade política. Investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, deixou o país em vez de permanecer aqui e enfrentar os questionamentos. Se é inocente, como sustenta, tem a oportunidade de demonstrar isso.
É a velha cartilha do bolsonarismo radical: tudo é culpa do inimigo, toda investigação é perseguição e toda derrota vira conspiração.
Se ganhasse a eleição, como se esperava, eliminaria todos os inimigos da política, do STF, do legislativo com facilidade.
Derrotado, a forma de eliminá-los daria mais trabalho, iria exigir esforço do diálogo, argumentação, negociação, debate, comportamentos que o bolsonarismo já demonstrou não ter. E que a direita do Brasil, quando não era dominada pela família, tinha.
Decisão da Justiça
Dito isso, é preciso destacar que a decisão de Alexandre de Morais de recolher passaportes de Flávio, após pedido da PF, minutos depois da eleição acabar, só ajuda a alimentar a narrativa de perseguição. Muito ruim. Até porque os motivos apresentados foram bem generalistas.
Se havia um mínimo desejo de ficar no Brasil (e parece que não já que havia um plano de fuga pronto), ele cresceu quando o ministro, já sem credibilidade nas decisões, entrega um roteiro pronto para o discurso de conspiração jurídica e policial.
Na prática, como toda decisão de Morais já está contaminada, seria prudente o presidente também tomar para si essa investigação contra Flávio. Uma forma de proteger uma parte da Suprema Cortes que está "com pé na lama".

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