CONVERSA POLÍTICA
O preço de um mandato na eleição da Paraíba
Os valores pagos não são mais por uma promessa de obra, compromissos e ajuda na gestão. O desembolso é pela influência municipalista.
Publicado em 06/10/2026 às 11:33

Quanto custou o apoio político, convertido em voto, na Paraíba? Quanto custou a compra do voto? Para os pequenos, o de sempre: uma conta de energia paga, um botijão de gás ou um cargo simples de prestador dentro da máquina pública. Era aquele negócio feito de madrugada, na véspera da eleição, que a Polícia Federal, algumas vezes, conseguiu rastrear.
Mas um novo arranjo escancarou as negociatas eleitorais no Estado: a compra de lideranças políticas. Prefeitos de cidades menores e maiores, vereadores de municípios mais populosos e daqueles sem tanta robustez eleitoral. É compra de influência, da indicação, da pressão municipalista.
É difícil guardar segredo quando tanta gente fala sobre e ouve relatos das vantagens do negócio. Naturalizaram o ato e as conversas sobre ele. Talvez ninguém consiga provar, talvez não seja motivo de cassação ou inelegibilidade, mas a maior evidência de que há verdade nesses relatos está na repetição quase sinfônica das versões das conversas com beneficiados e nas confissões aos pares.
Com os que aceitaram vender o apoio e com os que resistiram até onde foi possível, o preço não é mais o de uma promessa de obra, o compromisso e ajuda na gestão. Foi-se o tempo que era só isso.
Na Paraíba, um vereador, de acordo com relatos acumulados ao longo da campanha, custava R$ 100 mil. O valor poderia chegar a R$ 300 mil, dependendo do tamanho da cidade. Nada pra cidade, nada para um bairro. Mas repasse particular mesmo.
Um prefeito começava a fraquejar nas posições quando a oferta chegava a R$ 600 mil, mas há relatos que chegam a R$ 12 milhões. Difícil saber se a conta era do cofre público, privado ou dos dois. Aqui, não há generalizações. Se houve quem não caiu no canto da seria, há certeza é de que muitos se entregaram.
Tudo isso pode acabar virando lenda, porque nem mesmo as autoridades de fiscalização talvez consigam provar. Mas o que todo mundo sabe, e já não circula apenas ao pé do ouvido, é que o obsceno passou a se apresentar com a naturalidade de uma prática eleitoral.
Tinha preço para apoiar, para abandonar um aliado antigo, para simplesmente não apoiar. Tinha proposta e contraproposta. Algumas miúdas: colocar um adesivo por R$ 1.500.
Muitos relativizaram. Muitos ainda relativizam. Mas é preciso, ao menos, não naturalizar um movimento amoral. A política, aquela da pólis grega, na qual o bem comum deveria dar sentido aos atos, foi sendo desconfigurada. Quando a atividade vira esquema financeiro, fazer qualquer negócio para obter os maiores dividendos atropela limites éticos. Não é detalhe.
Como nunca se viu na história recente deste estado (de forma tão clara), há evidências nítidas de derrame de dinheiro em troca de anúncios de apoio. Recursos de origem indefinida, de rastreio improvável, mas acompanhados de uma imoralidade evidente.
Não são apenas velhos boatos eleitorais. E não é porque há uma anestesia geral sobre o tema, que ele deve ser naturalizado.

Comentários