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Governadores da Paraíba: o governo de Ronaldo Cunha Lima, o 'poeta' que focou nas contas públicas

Ronaldo Cunha Lima ficou conhecido pelo foco na organização fiscal. Governador também foi marcado por atentado contra Burity, seu antecessor.

Publicado em 11/06/2026 às 16:33

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O governo de Ronaldo Cunha Lima na Paraíba, de 1991 a 1994, é lembrado pela figura singular de um "poeta no poder" que assumiu um estado em grave crise fiscal. E, ao mesmo tempo, pelo ato de violência que chocou o país: a tentativa de assassinato de seu antecessor, Tarcísio Burity.

Eleito pelo então PMDB em uma disputa acirrada, sua gestão se distanciou das grandes obras para focar no saneamento financeiro.

Esta reportagem é o segundo episódio da série especial “Governadores: A História do Executivo na Paraíba”, projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, pelo repórter Guilherme Bezerra e também do repórter Gustavo Demétrio.

O episódio do podcast está disponível no Spotify e em todas as plataformas de áudio. OUÇA ACIMA

Um poeta no poder

Antes de chegar ao Palácio da Redenção, Ronaldo Cunha Lima construiu sua base eleitoral como prefeito de Campina Grande, a segunda maior cidade do estado. Durante a gestão municipal, ele foi o responsável por criar o Parque do Povo e por revitalizar as festas juninas, instituindo o evento de 30 dias que ficou conhecido como "O Maior São João do Mundo". O reduto eleitoral foi herdado por seu filho, Cássio Cunha Lima, que o sucedeu no comando da cidade.

O passo rumo ao governo estadual foi oficializado em 12 de janeiro de 1990, na Associação Paraibana de Imprensa, com o slogan "Nem Braga, nem Burity, Ronaldo vem aí".

Representando as fileiras tradicionais do PMDB, ele se colocou como uma alternativa à gestão do então governador Tarcísio Burity, que, apesar de pertencer ao mesmo partido, enfrentava desgastes e governava com opositores.

Nesse cenário, inclusive, afirma o escritor e historiador José Octávio de Arruda Mello, para a reportagem, que a escolha pelo nome de Ronaldo como candidato naquele momento se baseava justamente na confiança de que um nome tradicional poderia vencer as eleições. "Surgiu a ideia de que o MDB devia recorrer a um candidato histórico, na eleição de 1990, um candidato histórico", ressaltou.

A eleição de 1990 foi acirrada. No primeiro turno, realizado em 3 de outubro, Ronaldo enfrentou nomes de peso como João Agripino Neto, Genival de França, Juraci Palhano Freire e o ex-governador Wilson Braga, que liderava uma coligação de sete partidos.

Com as urnas apuradas, no primeiro turno daquela eleição, Wilson Braga obteve 33% dos votos contra 31% de Ronaldo.

A disputa foi decidida em um segundo turno tenso, no dia 25 de novembro. Focando sua campanha na capital e nos municípios do litoral, e distanciando-se estrategicamente da imagem do governo Buriti, Ronaldo Cunha Lima conseguiu reverter o quadro e foi eleito governador com 55% dos votos válidos.

Os problemas nas contas do estado

Ao assumir o Executivo, o novo governador encontrou um cenário de grave crise. Segundo registros da equipe de transição da época, o estado lidava com salários do funcionalismo público atrasados em até seis meses e uma folha de pagamento inchada pela presença de funcionários fantasmas.

Esse cenário foi descrito pelo filho e herdeiro político, Cássio Cunha Lima, como uma "situação fiscal dificílima".

"Era uma situação fiscal dificílima. Paraiban fechado, salários atrasados em até seis meses. Um desalento generalizado também por conta de uma folha inchada com funcionários fantasmas. E o grande trabalho que o poeta, o governador Ronaldo, fez nos primeiros momentos do governo foi exatamente equalizar essa situação financeira fiscal", afirmou Cássio Cunha Lima para a reportagem. 

No discurso de posse daquele governo, Ronaldo deixou claro que sua prioridade não seria a infraestrutura física. O foco era a saúde das contas fiscais do estado.

"Não me julguem por obras físicas e grandiosas, desnecessárias ou adiáveis, mas por ações de governo que permitam aumentar o emprego e a renda dos paraibanos", declarou.

Com esse intuito, para organizar a máquina pública, a gestão adotou uma série de medidas, entre elas:

  • Censo do servidor: recadastramento para eliminar funcionários fantasmas. Sobre a medida, o governador costumava ironizar dizendo que iria "pagar os vivos, não os vivos demais";
  • Revisão do orçamento: mudança nas proporções de divisão do orçamento estadual;
  • Arrecadação: autorização para o recolhimento de ICMS vencido;
  • Corte de gastos: suspensão de desembolsos financeiros não essenciais e reestruturação de secretarias e autarquias.

"E além disso, conseguiu fazer um censo do servidor, e o poeta com sua presença de espírito costumava dizer, 'eu vou pagar os vivos, não os vivos demais'", ressaltou Cássio Cunha Lima sobre a tentativa de Ronaldo em sanar as contas do estado.

Outro ponto central da gestão econômica foi a luta pela reabertura do Banco Estadual da Paraíba (Paraiban), que havia sido liquidado durante o governo do presidente Fernando Collor.

Com a ajuda do então presidente do Senado Federal, o paraibano Humberto Lucena, o estado conseguiu a liberação de 105 bilhões de cruzeiros no início de 1993, permitindo que a instituição voltasse a operar em 1994.

Um outra política pública apoiada no governo de Ronaldo Cunha Lima, segundo o Secretário de Justiça e Cidadania do Governo, à época, Inaldo Leitão, foi de um programa para emissão de certidão de nascimento, casamento e outros documentos como RG e CPF. Sem a documentação, não era possível exercer direitos. Havia um grande número de pessoas sem isso à época.

"O Programa Cidadania, apoiado pelo governador Ronaldo Cunha Lima, e esse programa fornecia certidão de nascimento, carteira de identidade para você exercer o direito de ir e vir, CPF para você participar de algum programa social, ou então obter um emprego. Enfim, essa documentação que fazia com que nós chamássemos aquela pessoa de cidadão ou de cidadã", explicou.

Ronaldo e o trabalho político

O historiador José Octávio também afirmou que o governo Ronaldo Cunha Lima adotou uma postura de maior centralidade partidária. O governo anterior, segundo ele, adotava uma postura de menor centralidade política com o próprio partido. O "poeta" se mantinha dentro da legenda e, claro, não fechava as portas para o diálogo, também conforme o pesquisador.

"Ronaldo inverteu a situação de Burity. Burity criou problemas, porque Burity era muito ele mesmo. Burity, então, elegeu-se pelo MDB, mas não deu bolas ao MDB. Governou, inclusive, com o PFL, que era o partido adversário do MDB. Terminou rompendo com a maioria do MDB e terminou, coisa curiosa, Burity pegando o voto em branco", ressaltou o historiador.

Com essa diferença, José Octávio também afirmou que, por isso, Ronaldo conseguiu uma articulação mais ampla com os outros poderes constituídos da Paraíba, como a Assembleia Legislativa.

"Ronaldo teve maioria total na Assembleia Legislativa. Elegeu o presidente Gilvan Freire, se não me engano. Elegeu a maioria dos prefeitos, só perdeu, parece que, em João Pessoa e em Guarabira, por questões meramente circunstanciais. Venceu na maioria dos municípios da Paraíba e fez maioria na Assembleia. Conseguiu a unanimidade do presidente da Assembleia", disse.

O atentado a Burity em restaurante


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À esquerda, Tarcísio Burity, e do lado direito, Ronaldo Cunha Lima - Foto: Reprodução.

A maior crise do governo e da vida de Ronaldo Cunha Lima ocorreu em 5 de novembro de 1993, ainda quando era governador do estado. O episódio foi noticiado em rede nacional pelo jornalista Sérgio Chapelin, no Jornal Nacional, com as seguintes palavras:

"O governador está em liberdade desde a madrugada de hoje. Ele foi preso ontem em Campina Grande, depois de tentar matar com três tiros o ex-governador Tarcísio Burity", leu o apresentador.

Ronaldo foi preso, mas liberado horas depois após uma "batalha jurídica". Em entrevista concedida aos prantos no dia seguinte, ele falou sobre o ato. (Escute a entrevista histórica no podcast )

"Eu tinha que defender a honra do meu filho e a minha própria vida. Nunca imaginei que um dia eu pudesse ser levado a uma situação dessa. Eu não mato nem uma mosca, mas a honra do meu filho... Ele dizia que não perdoava Cássio nem até a quinta geração. E quando se encontrasse comigo, me matava", declarou Ronaldo.

A motivação, segundo o historiador José Octávio de Arruda Mela, estaria ligada a críticas que o filho de Ronaldo, Cássio Cunha Lima, vinha recebendo de um bispo. Ronaldo supôs que Burity estava por trás de uma campanha difamatória e, por isso, adentrou um restaurante de para lhe "desfechar três tiros", como relataram os jornais à época.

Após o atentado, Ronaldo Cunha Lima pediu afastamento do cargo por dez dias, e o vice, Cícero Lucena, assumiu interinamente.

Contudo, dispondo de ampla maioria na Assembleia Legislativa, o PMDB rejeitou o pedido de licença e também a convocação extraordinária para processar o governador por 26 votos a 2. Menos de um mês após o crime, em 26 de novembro de 1993, Ronaldo reassumiu o governo.


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Ronaldo Cunha Lima foi detido para prestar esclarecimentos sobre tiros contra Tarcísio Burity; em foto de 1993 - Foto: TV Cabo Branco.

A primeira entrevista com Ronaldo Cunha Lima após o atentado foi conduzida pelo jornalista Carlos Siqueira, atual Coordenador de Jornalismo da TV Paraíba e apresentador do JPB2 em Campina Grande. Ele explicou como se deu aquela apuração e o momento da entrevista com o então governador. Ele conta que após uma conversa com o filho, Cássio Cunha Lima, Ronaldo aceitou realizar a entrevista.

"Não é que ele topou? E aí veio a primeira grande entrevista de Ronaldo. Eu digo grande, não pelo tamanho, mas porque era o primeiro depoimento dele e eu consegui com exclusividade para todo o Brasil. Foi uma entrevista onde Ronaldo dizia que 'não matava nem uma mosca'", relatou.

O jornalista também conta como estava Ronaldo Cunha Lima naquele momento. Ele descreveu o então governador muito abalado e até trêmulo.

"Ronaldo se tremia por inteiro, ele estava trêmulo e foi um grande furo de reportagem porque eu consegui essa entrevista exclusiva com Ronaldo logo após esse fato. E depois ele não falou mais sobre o assunto porque se recolheu e não concedeu mais entrevistas à imprensa", disse.

Apesar de ter seguido no mandato e, posteriormente, ter sido eleito senador e deputado federal, o processo criminal continuou a tramitar. Anos depois, para evitar a perda dos direitos políticos e uma possível condenação, ele renunciou ao seu mandato de deputado federal quando o caso estava no Supremo Tribunal Federal (STF). Ronaldo morreu em 2012

Onde ouvir o podcast

Além do Spotify, é possível ouvir o primeiro episódio da série "Governadores: A História do Executivo Na Paraíba", pelo Deezer e também pelo Google Podcasts. Fecomércio e FIEP oferecem os episódios.

Foi parte importante do projeto do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação, com o levantamento de arquivos históricos sobre o governador. Lauriston Pinheiro foi responsável por auxiliar na memória e contexto histórico do episódio.

O Jornal da Paraíba, a cada episódio, vai trazer a história dos governos em edições especiais em texto.

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Gustavo Demétrio

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