João Azevêdo chegou ao Palácio da Redenção em 2019 com um governo que parecia, inicialmente, ser de continuidade. Escolhido pelo então governador Ricardo Coutinho para representar o grupo político nas eleições de 2018, o engenheiro de formação precisou superar um dos principais obstáculos de sua campanha: ser pouco conhecido pela população paraibana.
Depois de assumir o mandato, após vencer as eleições, ainda esteve em meio à um início da gestão marcado por uma crise que já estava em curso antes mesmo da posse: a Operação Calvário, que investigava um esquema envolvendo organizações sociais responsáveis pela administração de unidades de saúde.
Esta reportagem faz parte da série especial “Governadores: A História do Executivo na Paraíba”, projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, idealizado pelo repórter Guilherme Bezerra e com reportagens do repórter Gustavo Demétrio.
Nome de João Azevêdo era desconhecido
Conforme o ex-governador, João Azevêdo, em entrevista especial para a série, o maior desafio inicial era vencer o desconhecimento do nome dele para conseguir disputar as eleições e ser conhecido pelos paraibanos.
“A pesquisa mostrava que eu era conhecido por apenas 5% da população do estado. Apenas 5%. Isso, para mim, foi o maior desafio, evidentemente”, relembrou João Azevêdo.
A estratégia para vencer esse desconhecimento foi percorrer o estado. Segundo o governador, foram cerca de 40 mil quilômetros durante a campanha, passando pelos 223 municípios da Paraíba.
“Eu fui nos 223 municípios do estado da Paraíba e não fui uma vez só. Não muitas vezes em todos, mas vários municípios eu fui várias vezes como uma forma de realmente vencer essa dificuldade de não ser conhecido”, afirmou.
O esforço deu resultado. João Azevêdo venceu a eleição de 2018 com 58% dos votos, no prirneiro turno, e assumiu o governo em 1º de janeiro de 2019.
Crise da Operação Calvário e na saúde

João Azevêdo reconheceu em entrevista que recebeu o estado em meio a uma crise na saúde e precisou tomar decisões logo nos primeiros meses de gestão.
“Eu recebi o estado no meio de uma crise, uma crise na saúde, uma operação que mexeu com a estrutura toda do governo e naquele momento exigiu da minha parte uma tomada de decisão, ou renunciar ou governar. Não tinha outra alternativa, e eu decidi governar diante de todas as dificuldades”, disse.
O governador resume aquele início de gestão de maneira ainda mais direta: “Eu sempre digo que eu recebi o governo nas páginas policiais”.
Uma das primeiras decisões foi intervir nos hospitais administrados por organizações sociais, envolvidas em escândalos. A gestão passou a trabalhar para retirar essas organizações do sistema de saúde estadual.
“Todas as medidas que nós tivemos que tomar já em janeiro, como fazer a intervenção em todos os hospitais operados pelas organizações sociais, para tirar as organizações sociais de dentro da Paraíba. Isso nos custou um esforço gigantesco dentro da gestão. Tivemos praticamente que, durante seis meses, focar só nesse problema”, afirmou.
A criação da Fundação Paraibana de Gestão em Saúde, a PB Saúde, veio posteriormente como parte dessa mudança na administração dos hospitais estaduais.
“Chegamos ao final de 2019 com a Fundação PB Saúde criada, que começou a fazer gestão dos hospitais, começou evidentemente a total retirada de todas as OS da Paraíba, para a gente retomar verdadeiramente os destinos do sistema de saúde da Paraíba”, contou João.
O rompimento com Ricardo Coutinho

A crise na saúde também se misturou a uma crise política dentro do grupo que havia levado João Azevêdo ao governo. A Operação Calvário havia sido desencadeada em dezembro de 2018, depois das eleições e antes de João Azevêdo assumir o poder executivo. O caso avançou e atingiu pessoas que ocupavam cargos importantes na estrutura do governo.
Ricardo Coutinho e João Azevêdo tinham uma relação política construída desde a Prefeitura de João Pessoa. João havia sido secretário na gestão municipal comandada por Ricardo e, posteriormente, ocupou uma das principais secretarias do governo estadual.
A relação, entretanto, começou a se desgastar em meio aos desdobramentos da Operação Calvário e às decisões tomadas pelo então novo governador.
“E a partir daí começou a gerar o desgaste na relação, porque essas organizações tinham sido contratadas na gestão anterior. E a partir daí, essa coisa ela não tem... A cada medida que eu tomava, havia uma reação de que as medidas tomadas não eram com o intuito de prejudicar quem quer que fosse. Para fazer com que a coisa funcionasse corretamente”, afirmou.
O conflito acabou levando João Azevêdo a deixar o PSB, partido pelo qual havia sido eleito em 2018. Em dezembro de 2019, o governador anunciou a saída da legenda e posteriormente se filiou ao Cidadania.
A relação com a ALPB
Mesmo em meio às crises políticas, o governo precisava avançar em sua agenda administrativa. O deputado Adriano Galdino, que presidiu a Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB) durante os mandatos de João Azevêdo, avaliou que o governador recebeu um estado em uma condição favorável do ponto de vista fiscal e financeiro e deu continuidade ao trabalho.
“O João deu continuidade e posso até afirmar que ele até melhorou nesse aspecto. Conseguiu investimentos valiosos não só para a capital, mas também para o interior do Estado”, afirmou Adriano Galdino.
Entre as pautas destacadas estavam a reforma da Previdência dos servidores, a criação da PB Saúde e ações relacionadas à segurança pública.
Em março de 2020, João Azevêdo sancionou a reforma da Previdência estadual. Uma das alterações elevou de 11% para 14% o percentual de desconto nos salários dos servidores. Mas, naquele mesmo período, uma crise de proporções muito maiores começava a mudar completamente os planos dos governos em todo o mundo, a pandemia.
A pandemia

Em março de 2020, a pandemia de Covid-19 chegou à Paraíba e impôs ao governo uma série de decisões que afetariam praticamente todos os setores da sociedade. Para João Azevêdo, aquele foi o momento mais difícil de sua gestão.
“Foi o pior período da gestão, mais difícil administrativamente falando, porque exigiu de nós tomar a decisão que impactava na vida de todo mundo”, afirmou.
O governador contou que as decisões precisavam ser tomadas com frequência e que ele próprio precisava estar à frente da comunicação com a população.
“E eram muitas decisões e eram decisões quase que semanais que eu tinha que tomar e não tinha outra pessoa que pudesse colocar a cara para dizer à população como nós estávamos agindo, o cuidado que nós teríamos com essa população, o que seria as consequências de cada medida e era eu que tinha que estar à frente”, disse.
A primeira morte por Covid-19 na Paraíba foi registrada em março de 2020. A partir daquele momento, o governo ampliou as medidas para tentar controlar a disseminação do vírus.
No entanto, antes da confirmação dos primeiros casos no estado, a cúpula do governo já havia se reunido para falar sobre a dimensão que a pandemia poderia alcançar.
“Nós alertamos naquele momento da reunião no Palácio da Redenção a todos que estavam presentes de que nós teríamos uma pandemia”, afirmou o então secretário de Saúde Geraldo Medeiros, ao recordar o encontro.
Restrições e a economia
Entre as medidas adotadas para mitigar os impactos da Covid-19 na sociedade e na saúde da população, ainda estavam restrições à circulação e às aglomerações, suspensão de atividades presenciais e medidas voltadas para setores da economia.
O governo também adotou medidas para tentar preservar atividades consideradas essenciais. A preocupação, segundo João Azevêdo, era encontrar uma forma de proteger a população sem paralisar completamente a economia.
“Então nós decidimos. Agricultura, não para. Primeiro, porque nós precisamos da alimentação. Segundo, porque ela é praticada em ar livre. Então não há questão da contaminação. Questão de fábrica, se você entrar em qualquer fábrica, você percebe que é muito organizado. Então dava para fazer um protocolo que mantinha as indústrias funcionando”, disse.
As medidas restritivas provocaram reação de diferentes setores da sociedade, incluindo grupos religiosos.
“Eu só tinha um foco em tentar salvar a vida das pessoas e eu tinha as armas que eu tinha como gestor, era suspender, por exemplo, cultos. Você imagine a pressão que foi dos evangélicos, da igreja católica, para entender que naquele momento eu não estava suspendendo as atividades religiosas”, disse João.
O governador também explicou a decisão de suspender as aulas presenciais à época.
“A Paraíba não tinha nenhum caso ainda em março de 2020 e eu suspendi as aulas. Eu sei que eu sou professor, fui professor, eu sei da importância do aluno estar em sala de aula. Mas eu também sabia que a única forma, porque era uma verdade, a contaminação se dava pela aproximação das pessoas”, afirmou.
Naquele momento, pela pandemia ter acabado de iniciar, não havia imunizantes disponíveis e nem desenvolvidos contra a doença. Somente com o passar do tempo, a comunidade científica desenvolveu as primeiras vacinas.
“Se você não tinha nenhum meio para proteger, a vacina ou qualquer tipo, qual é a regra básica? É você manter as pessoas afastadas. Não tem outra alternativa para ninguém”, completou.
Tensões com Bolsonaro e o Governo Federal

A pandemia também aprofundou as divergências entre governos estaduais e o governo federal. A relação entre João Azevêdo e o então presidente Jair Bolsonaro já era marcada por conflitos antes da pandemia. Durante um encontro com jornalistas, Bolsonaro fez críticas ao governador paraibano, por conta da diferença de tratamentos adotados sobre a pandemia.
João respondeu pelas redes sociais e defendeu o respeito aos princípios da unidade federativa e das relações institucionais. “Com Bolsonaro a relação era zero”, resumiu João Azevêdo, em entrevista especial para o podcast.
Segundo o então governador, havia divergências sobre a maneira de enfrentar a pandemia, principalmente em relação às medidas de restrição.
“Até porque toda a medida que os estados tomavam, ele era absolutamente contrário no sentido de, não, a economia não pode parar”, afirmou.
A discussão sobre as medidas sanitárias também chegou à Assembleia Legislativa da Paraíba, onde parlamentares da oposição criticaram as decisões tomadas pelo governo estadual.
A chegada das vacinas

Depois de meses de restrições, crise sanitária e aumento no número de mortes, a vacinação representou uma mudança no enfrentamento da pandemia.
A primeira pessoa a receber uma dose da vacina contra a Covid-19 na Paraíba foi a enfermeira Marineide Rodrigues Gouveia Ferreira, que trabalhava na linha de frente do combate à doença. João Azevêdo considerou a chegada da vacina um novo momento no enfrentamento da pandemia.
“E aí finalmente a vacina. A Paraíba foi um dos primeiros estados que recebeu, mesmo tendo o governo federal demorado, porque aquela vacina do Butantan e que não chegou porque se dizia que era da China e que deveria ter entrado, ela poderia ter salvado muito mais vidas. Infelizmente demorou, mas chegou a vacina e a partir daí começou efetivamente um outro momento”, afirmou.
Ao avaliar as medidas tomadas durante a crise sanitária, João defendeu que as decisões ajudaram a reduzir o número de mortes.
“Dá para você fazer uma avaliação empírica de que nós teríamos aí 50% mais de mortos se nós não tivéssemos adotado essas medidas”, disse.
Para ele, uma das principais características da atuação do governo foi a antecipação das necessidades.
“Um dos indicadores foi justamente que o estado adotou todas as medidas com tempestividade, quer dizer, nós nos antecipamos às necessidades que ocorreriam no futuro”, afirmou.
Educação e programa
Enquanto a pandemia acontecia, o governo teve ações em outras áreas da administração pública. Na educação, uma das prioridades apontadas foi a expansão do ensino integral e das escolas técnicas. Cláudio Furtado, secretário de Educação durante o primeiro governo, destacou a ampliação da oferta.
“Primeiro, a universalização do ensino integral no Estado. A gente chegou a todas as cidades com ensino integral e o aumento nas escolas técnicas integrais”, afirmou.
Segundo ele, o trabalho também envolveu a formação e contratação de professores e a ampliação da participação de escolas do interior em programas educacionais. Na saúde, além da pandemia, o governo encontrou outro problema: a fila de espera por cirurgias eletivas.
João Azevêdo conta que inicialmente teve dificuldade para acreditar nos relatos de pessoas que aguardavam havia anos por procedimentos.
“Era estranho, algumas pessoas chegavam e diziam assim, 8 anos que eu estou esperando uma cirurgia, 6 anos que eu estou esperando uma cirurgia. E eu cheguei a duvidar daquilo”, afirmou.
De acordo com o governador, por isso houve a criação do Opera Paraíba, programa voltado para a realização de cirurgias e redução da fila do sistema público.
“Eu pedi a fila de todos os hospitais, quais eram as cirurgias, qual era o custo para fazer essas cirurgias, quanto o SUS ia mandar, quanto o Estado podia, tinha que entrar para completar. Fechamos uma conta”, explicou.
Com isso, o primeiro governo de João Azevêdo no estado foi se encaminhando para o final e a disputa pelas eleições pela reeleição já estava no horizonte. Na próxima semana, o segundo mantado do ex-governador vai ser tema da reportagem.
Onde ouvir o podcast
Além do Spotify, é possível ouvir o primeiro episódio da série "Governadores: A História do Executivo Na Paraíba", pelo Deezer e também pelo Google Podcasts.
Foi parte importante do projeto do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação, com o levantamento de arquivos históricos sobre o governador.
O Jornal da Paraíba, a cada episódio, vai trazer a história dos governos em edições especiais em texto.


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