POLÍTICA
Opinião: A eleição acabou. A conta, não.
A vitória é histórica. Mas precisa ser contada sem o romantismo ideológico.
Publicado em 27/10/2026 às 11:40 | Atualizado em 27/10/2026 às 12:07

O segundo turno da eleição presidencial ficou marcado pela quebra de alguns paradigmas. O principal deles, o de que, pela primeira vez, um presidente da República é eleito depois de ter perdido o primeiro turno das eleições, resultado que pode ser explicado, em parte, por três fatores principais: uma forte mobilização digital, a repetição da campanha do medo sobre a “perda de programas sociais” e a implementação de um verdadeiro caixa de bondades há poucos dias do pleito.
Entre esses fatores, sem dúvida, as benesses eleitorais tiveram um peso significativo. Com a popularidade do governo em baixa, o presidente reeleito, Lula (PT), recorreu a uma turbina de medidas “gratuitas” para se viabilizar eleitoralmente contra um adversário que aparentava ser mais frágil, Flávio Bolsonaro (PL), e que apesar disso chegou na frente no primeiro turno.
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Já no segundo turno, a tinta da caneta presidencial virou protagonista da cena política. Perdão de dívidas tributárias para o MEI, promessa de PIX para microempreendedores individuais, projeto para tornar gratuito o transporte público no fim de semana, anúncio de pé-de-meia universitário e aprovação da escala 6 x1. Antes, já havia anunciado o reajuste do Bolsa Família, o fornecimento de canetas emagrecedoras e o Desenrola Brasil 3.0.
A lista é extensa e os indícios de abuso da máquina, também.
É verdade que outros incumbentes já usaram expediente semelhante para melhorar a popularidade em ano eleitoral, mas “nunca antes na história deste país”, de forma tão aberta e a poucos dias da votação, durante o chamado "defeso eleitoral", período de restrições e regras impostas pela legislação brasileira. Todas essas ações, somadas às mobilizações e ao alarme da campanha do medo, contribuíram para a vitória eleitoral.
A vitória é histórica. Mas precisa ser contada como realmente foi, sem o romantismo da paixão ideológica.
Por isso, duas perguntas precisam ser respondidas. A primeira pergunta: o que aconteceu nestas eleições, em termos de medidas eleitorais, poderão ser repetidas nas próximas eleições para prefeito, governador e presidente? O defeso eleitoral ainda vai funcionar com as balizas antes postas? Ou em 2026 vivenciamos uma exceção à regra?
Talvez se o presidente Lula fosse prefeito da pequena cidade de Riacho dos Cavalos, na Paraíba, e julgado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB), poderia sofrer algum tipo de punição. É que o gestor paraibano perdeu o mandato, recentemente, por ter entregue máquinas agrícolas em março de 2024, sete meses antes das eleições daquele ano. Apenas um exemplo, entre tantos outros, de prefeitos que perderam o mandato algo semelhante.
A segunda pergunta que precisa ser respondida é: quem vai pagar a conta? E como ela será paga? Afinal, não existe almoço grátis e dinheiro não nasce em árvore.
Um levantamento do site Poder360, ainda no primeiro turno, quando apenas uma parte das benesses havia sido anunciada ou implementada, aponta que o impacto econômico já ultrapassava R$ 460 bilhões. Economistas e o próprio governo já reconhecem a necessidade de ajustes em 2027 em um cenário de aumento da dívida pública, endividamento recorde das famílias, juros altos e elevada carga tributária.
Como fechar essa equação tão difícil? O dinheiro terá de sair de algum lugar, e o governo só tem dois caminhos: terá que escolher entre cumprir à risca tudo o que prometeu ou fazer um ajuste fiscal para conter ordenar minimamente as contas públicas. O fato é que, seja com benesses ou medo, o presidente Lula venceu mais uma vez, e governará pelos próximos quatro anos. Com o país dividido ao meio, o petista deveria abrir os ouvidos para as críticas necessárias e ajustar rumos sem querer calar quem aponta seus erros. Eis aqui outra preocupação para os próximos anos.

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