POLÍTICA
Relator pede indiciamento de ex-assessor de Hugo Motta na CPMI do INSS
Relatório diz que Jerônimo Arlindo atuava como elo político de esquema e movimentou "cifras incompatíveis" com renda de assessor.
Publicado em 27/03/2026 às 19:37 | Atualizado em 27/03/2026 às 20:10

O ex-assessor parlamentar Jerônimo Arlindo da Silva Júnior foi incluído na lista de indiciados pela CPMI do INSS, nesta sexta-feira (27), sob a acusação de atuar como elo político do esquema de fraudes em benefícios previdenciários. O relatório foi apresentado pelo relator, o deputado federal Alfredo Gaspar (União), e ainda será votado.
De acordo com o documento, Júnior do Peixe, como é mais conhecido no meio político, ocupava posição estratégica “em um ponto de intersecção entre o lobby de entidades investigadas e parlamentares”, utilizando o cargo no gabinete do deputado federal Hugo Motta (Republicanos) para abrir portas dentro da administração pública.
Segundo a investigação, Jerônimo atuava simultaneamente como assessor parlamentar e como articulador de interesses da CONAFER, entidade da qual foi diretor, conferindo "à entidade um acesso privilegiado a instâncias decisórias, facilitando a remoção de entraves administrativos e garantindo a manutenção do fluxo de descontos indevidos”.
Para a CPMI, ele operava como “braço político” do esquema, utilizando a função pública para influenciar decisões e proteger a entidade investigada.
Quebra de sigilos
Já em dezembro, a CPMI quebrou os sigilos bancário e fiscal do paraibano por indícios de irregularidade, o que aprofundou as investigações.
O relatório afirma que entre novembro de 2020 e agosto de 2025, o paraibano recebeu o montante de R$ 998.553,30 diretamente da CONAFER e de operadores ligados à organização criminosa.
“Esses pagamentos ocorreram inclusive durante o período em que ele estava formalmente lotado no gabinete parlamentar”, diz o documento, “evidenciando que sua remuneração real provinha do esquema de exploração de benefícios previdenciários”.
Além da atuação política, há indícios de movimentação financeira incompatível com a renda declarada.
Movimentações suspeitas
O relatório aponta que suas contas funcionavam como “canal de trânsito de recursos de origem não declarada”, com padrão típico de circulação de valores. As quebras de sigilo bancário revelaram que, entre 2015 e 2025, o indiciado movimentou a crédito o valor total de R$ 7.827.261,45.
“Tais cifras eram flagrantemente incompatíveis com seus vencimentos como secretário parlamentar ou assistente administrativo, sugerindo que sua conta servia como duto para a circularização de ativos ilícitos”, diz a investigação.
De acordo com a CPMI, a atuação incluía pressão institucional para reverter sanções e assegurar a continuidade dos descontos aplicados sobre aposentadorias e pensões.
Diante das evidências, Jerônimo foi indiciado pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e advocacia administrativa. Para a CPMI, a atuação dele foi “indispensável” para dar sustentação política ao esquema e permitir que as fraudes se mantivessem ativas mesmo sob suspeita.
Ao pedir o indiciamento, o relator afirma que o paraibano investigado “transformou o cargo de assessor parlamentar em verdadeiro instrumento de pressão e lobby institucional”.
“Diante do exposto, procede-se ao indiciamento de Jerônimo Arlindo da Silva Júnior, cuja atuação revela-se central para a compreensão de como a organização criminosa se valia da estrutura do Poder Legislativo para blindar suas atividades ilícitas", afirma a investigação.
Cargo no Governo da Paraíba
Relatório precisa ser aprovado
Apesar da citação ao nome do paraibano, o documento precisa ser aprovado pela maioria dos integrantes da CPMI para ter validade.
De acordo com o G1, o governo tenta evitar que o documento seja aprovado. Entre os indiciados está o filho do presidente da República, Fábio Luís da Silva, e mais 215 pessoas, incluindo congressistas e ex-ministro.
A CPMI é composta por 32 membros, 16 senadores e 16 deputados federais. Para ser aprovado, o relatório precisa ter ao menos 17 votos favoráveis.
Outro lado
Em contato anterior com o Jornal da Paraíba, Júnior do Peixe havia dito que recebeu valores compatíveis com sua “formação profissional” e “fundamentados em contrato”. Ele negou irregularidades.
Com o indiciamento, a reportagem solicitou um novo posicionamento do ex-assessor. O texto será atualizado quando houver resposta.
Leia o relatório, na íntegra, abaixo.

Comentários