SAÚDE
Morte de fisiculturista reacende alerta sobre uso de insulina para ganho muscular
Hormônio usado no tratamento do diabetes passou a ser utilizado de forma irregular por atletas em busca de ganho muscular acelerado.
Publicado em 27/05/2026 às 6:05

A morte do fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley reacendeu o debate sobre o uso de insulina no meio esportivo e os riscos associados à utilização da substância sem indicação médica. Embora seja um hormônio essencial para pessoas com diabetes, especialistas alertam que o uso inadequado da insulina por fisiculturistas pode provocar consequências graves, como hipoglicemia severa, danos cerebrais, complicações cardíacas e até morte súbita.
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A insulina é produzida naturalmente pelo pâncreas e tem a função de transportar a glicose do sangue para dentro das células, onde ela é usada como fonte de energia. Além disso, também participa do transporte de aminoácidos e do armazenamento de nutrientes.
Segundo o endocrinologista Mário Coutinho, membro titulado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a insulina funciona como uma espécie de “chave mestra” do organismo.
“Quando nos alimentamos, a insulina circula no sangue para abrir as portas das células, permitindo que a glicose e os aminoácidos entrem nelas para gerar energia”, explicou.
Por que fisiculturistas usam insulina?

No fisiculturismo, a substância passou a ser utilizada devido ao seu potencial anabólico e anticatabólico. Isso significa que ela pode favorecer o ganho de massa muscular e reduzir a degradação dos músculos após treinos intensos.
De acordo com o médico do esporte Diogo Vilar, alguns atletas utilizam a insulina para acelerar a recuperação muscular e aumentar o volume dos músculos.
“Quando ele faz o uso da insulina, joga toda essa energia para dentro do músculo. Isso aumenta o tamanho muscular e acelera a recuperação”, afirmou.
O médico, no entanto, ressaltaou que a insulina não é suplemento alimentar e não deve ser usada para fins estéticos ou de performance.
“Ela é um medicamento utilizado principalmente por pessoas com diabetes. Não foi feita para ser usada como atalho para resultados físicos”, destacou Vilar.
A endocrinologista Natalia Laender explica que o organismo saudável já regula a quantidade ideal do hormônio de forma extremamente precisa.
“O ajuste da insulina é muito delicado. O corpo libera apenas a quantidade necessária. Quando há uso excessivo, a glicose no sangue despenca e isso pode causar hipoglicemia grave”, afirmou.
Hipoglicemia pode levar ao coma em minutos
Entre os principais riscos do uso indevido da insulina está a hipoglicemia, quadro em que o nível de açúcar no sangue cai drasticamente.
Os sintomas iniciais incluem:
- Suor frio
- Tremores
- Taquicardia
- Fome intensa
- Tontura
- Visão turva
- Confusão mental
Segundo Mário Coutinho, em casos mais graves, a pessoa pode perder a consciência rapidamente.
“O cérebro depende exclusivamente da glicose para funcionar. Quando a queda é abrupta, o organismo entra em colapso. Isso pode causar convulsões, coma hipoglicêmico e morte em questão de minutos”, alertou.
Anabolizantes aumenta riscos cardiovasculares
Especialistas também alertam para os perigos da combinação entre insulina e esteroides anabolizantes, prática comum em ciclos de preparação de atletas.
Segundo Diogo Vilar, os anabolizantes podem provocar alterações estruturais no coração, aumentando o risco de arritmias e falência cardíaca.
“O anabolizante pode agravar doenças cardíacas pré-existentes e provocar crescimento exagerado do coração. Isso pode desencadear arritmias fatais”, disse.
O endocrinologista Mário Coutinho acrescenta que o uso contínuo e inadequado da insulina também pode desregular o metabolismo do atleta e levar ao desenvolvimento de um diabetes secundário.
“O corpo pode passar a ignorar a própria insulina que produz. É um risco desproporcional para qualquer ganho de performance”, afirmou.
Estudo aponta alta taxa de morte súbita entre fisiculturistas

Um estudo conduzido pela Universidade de Pádua e publicado em 2025 no European Heart Journal analisou a mortalidade de mais de 20 mil fisiculturistas masculinos entre 2005 e 2020.
A pesquisa concluiu que a morte súbita cardíaca foi a principal causa de óbito entre os atletas, representando 38% das mortes registradas. O risco foi significativamente maior entre competidores profissionais.
Os pesquisadores também identificaram, em autópsias, casos frequentes de cardiomegalia e hipertrofia ventricular severa, alterações associadas ao uso abusivo de substâncias para ganho muscular e às exigências extremas do esporte.
Os autores do estudo defenderam a adoção de estratégias preventivas e maior conscientização sobre os riscos do uso indiscriminado de hormônios e anabolizantes.
“Nenhum resultado estético vale uma morte”
Para Mário, o principal alerta é para jovens que enxergam na insulina uma forma rápida de alcançar padrões físicos.
“Nenhum resultado estético vale o risco de uma morte súbita. O ganho de massa muscular deve ser um processo de construção de saúde, não de destruição. Ao usar insulina sem indicação médica, você está trocando o seu equilíbrio metabólico e a sua própria vida por uma ilusão de resultados rápidos.”, afirmou Mário Coutinho.
O endocrinologista reforça que o uso sem orientação médica representa uma interferência perigosa em um dos sistemas mais importantes do corpo humano.
“Não tente hackear a sua biologia com substâncias que, em mãos erradas, podem se tornar venenos letais”, concluiu.
*Sob supervisão de Erickson Nogueira

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