SAÚDE ALERTA
Copa, São João e coração: o problema não é torcer, é esquecer de se cuidar
Publicado em 10/06/2026 às 12:39

Junho mexe com o coração
Junho, no Brasil, é um mês em que o coração trabalha dobrado. Primeiro, pelo São João: a mesa cheia, o milho, a canjica, a pamonha, o bolo, o forró, os encontros de família, a memória afetiva que atravessa gerações.
Depois, pela Copa do Mundo: a camisa da seleção, a televisão ligada, a casa cheia, o grito preso na garganta, a emoção do gol — ou o silêncio depois de uma derrota.
Mas existe um lado dessa história que merece atenção: grandes jogos de futebol, especialmente partidas decisivas, podem estar associados a um aumento de eventos cardiovasculares, como infarto, arritmias e emergências cardíacas.
O que dizem os estudos
Na Copa de 1998, pesquisadores observaram aumento nas internações por infarto após a eliminação dramática da Inglaterra nos pênaltis contra a Argentina. Na Copa de 2006, na Alemanha, os jogos da seleção alemã foram associados a aumento expressivo de emergências cardiovasculares, principalmente em homens e em pessoas que já tinham doença coronariana conhecida.
No Brasil, também há dados nessa direção. Estudos sugerem que jogos da Copa, especialmente partidas da seleção brasileira, podem aumentar a incidência de infarto.
Isso não significa que o futebol seja vilão. Também não significa que a emoção mata por si só. A mensagem correta é outra: em pessoas vulneráveis, que já têm fatores de risco ou doença cardiovascular, uma grande carga emocional pode funcionar como gatilho quando encontra um organismo já sobrecarregado.
Futebol não mata; o descuido aumenta o risco
O futebol não mata. A emoção não mata. O que aumenta o risco é a soma de fatores: pressão alta mal controlada, diabetes descompensado, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo, excesso de álcool, noites mal dormidas, alimentação exagerada, uso irregular dos remédios e sintomas ignorados.
O jogo pode ser apenas o momento em que uma doença silenciosa aparece.
Durante uma partida decisiva, o corpo reage. A adrenalina aumenta. O coração acelera. A pressão pode subir. A respiração muda. A ansiedade aparece. Para a maioria das pessoas, isso é apenas parte da experiência de torcer.
Mas, para quem já tem obstrução nas artérias do coração, insuficiência cardíaca, arritmias, hipertensão importante ou histórico de infarto, esse esforço emocional pode ser mais perigoso.
O risco raramente vem sozinho
E há um detalhe importante: o risco raramente vem sozinho. O torcedor não está apenas emocionado. Muitas vezes ele está comendo mais sal, bebendo álcool, dormindo pior, esquecendo o remédio, fumando mais, ficando horas sentado e confundindo sintomas importantes com “nervoso do jogo”.
A dor no peito vira “ansiedade”.
A falta de ar vira “emoção”.
A palpitação vira “coisa da torcida”.
A pressão alta vira “raiva do juiz”.
E, nesse atraso, pode morar o perigo.
Quem precisa ter mais cuidado
As populações de maior risco precisam ter cuidado especial: pessoas com infarto prévio, angina, ponte de safena, stent, insuficiência cardíaca, arritmias, hipertensão mal controlada, diabetes, doença renal crônica, obesidade, tabagismo, colesterol alto e idosos.
Também merecem atenção aqueles que têm histórico familiar forte de doença cardíaca precoce ou que já sentem dor no peito aos esforços, cansaço desproporcional ou palpitações frequentes.
Ninguém precisa deixar de torcer
A boa notícia é que ninguém precisa deixar de torcer. A prevenção está em medidas simples.
A primeira é manter os remédios no horário. Para o hipertenso, o diabético e o cardiopata, esquecer a medicação no dia do jogo pode ser mais perigoso do que comer uma fatia de bolo ou um pedaço de pamonha. Remédio de pressão, insulina, anticoagulante, medicação para arritmia ou insuficiência cardíaca não deve depender do placar.
A segunda é evitar a maratona de excessos. Uma festa não destrói a saúde. O problema é a sequência: São João, churrasco, petiscos, salgadinhos, refrigerante, cerveja, doces, noites mal dormidas e pouco movimento. O corpo cobra a soma.
A terceira é beber água e moderar o álcool. Bebida alcoólica em excesso pode piorar pressão, arritmias, sono e glicose. E em quem usa medicamentos, o risco é ainda maior.
A quarta é respeitar sinais de alerta. Dor no peito em aperto, falta de ar importante, suor frio, desmaio, palpitação sustentada, confusão, fraqueza intensa ou dor irradiando para braço, mandíbula ou costas não devem esperar o fim do jogo. Nessas situações, é preciso procurar atendimento.
A quinta é transformar a festa em movimento. Copa e São João não precisam ser apenas sofá, tela e comida. Dançar forró, caminhar, brincar com os filhos, levantar no intervalo, encontrar amigos e se movimentar também fazem parte da saúde.
O coração gosta de alegria — e de cuidado
O coração gosta de alegria, mas gosta ainda mais quando a alegria vem acompanhada de cuidado.
No fundo, a Copa e o São João ensinam algo parecido: saúde não é viver proibido. Saúde é poder participar da vida com mais segurança. É sentar à mesa, torcer, rir, dançar, lembrar, vibrar — e continuar bem depois que a festa acaba.
O coração brasileiro pode, sim, entrar em campo. Mas precisa entrar preparado.
Porque festa boa é aquela que deixa memória, não susto. E torcer pelo Brasil também pode ser uma forma de torcer pela própria saúde.

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