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COTIDIANO

Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime

Especialistas apontam falta de empatia e remorso como elementos centrais e analisam a troca de mensagens de Patrick Nogueira com amigo durante crime.

Publicado em 17/09/2026 às 7:53


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime
Patrick foi condenado a prisão perpétua na Espanha.

Dez anos depois da Chacina de Pioz, o comportamento de François Patrick Nogueira Gouveia continua sendo um dos elementos mais perturbadores do caso. O jovem paraibano matou o tio, Marcos Campos Nogueira, a esposa dele, Janaína Santos Américo, e os dois filhos do casal, Maria Carolina, de 4 anos, e David, de 1 ano, na Espanha, em agosto de 2016.

Um dos aspectos que mais chamou atenção nas investigações foi a forma como Patrick compartilhou o crime em tempo real com o amigo Marvin Henriques Correia, que estava em João Pessoa. Enquanto aguardava a chegada do tio à casa, Patrick enviou mensagens detalhando o que havia feito e recebeu respostas do amigo.

Para o psiquiatra forense Guido Palomba, que atuou em casos de repercussão como o do Maníaco do Parque e de Henry Borel, esse comportamento pode ser compreendido dentro de uma estrutura de personalidade marcada pela ausência de empatia, compaixão e remorso. O especialista afirma que não se trataria de uma mudança repentina ou de um momento de perda de controle.

Citação

“Não é clique, não existe clique. Um dia acontece e ele nasceu assim, sem nenhum sentimento superior de piedade, zero sentimento de compaixão, zero remorso”, afirmou Palomba ao Jornal da Paraíba.

Guido Palomba - Psiquiatra Forense

O especialista, que atua na área de psiquiatria forense, classificou o comportamento de Patrick como compatível com o que chama de condutopatia, termo que prefere utilizar em vez de psicopatia. Segundo ele, nesses casos, a alteração estaria principalmente na conduta e na esfera afetiva.

“Eles não alucinam, não deliram, não têm problemas de inteligência, não têm problema de memória, de raciocínio, mas o sentimento é um sentimento absolutamente anormal, sem empatia, sem compaixão, sem altruísmo”, explicou.

*Nenhum dos psiquiatras entrevistados pelo Jornal da Paraíba examinou Patrick pessoalmente e, portanto, sua avaliação não representa um diagnóstico clínico feito diretamente no paciente, mas sim com documentos históricos do caso.

Crime como uma ‘performance’


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime

O psiquiatra forense britânico Richard Taylor também analisou o comportamento de Patrick a partir das informações públicas sobre o caso, das perícias divulgadas e dos relatos do processo.

Para Taylor, a ausência de empatia é um dos elementos mais importantes para compreender o comportamento do assassino. Ele também destacou o planejamento do crime e a maneira como Patrick permaneceu na residência após os primeiros homicídios, aguardando a chegada do tio.

Citação

“Uma pessoa que comete um homicídio afetivo após uma briga sente vergonha ou estresse, mas ele estava parado com três corpos mortos esperando o tio”, afirmou.

Richard Taylor

Ao analisar as mensagens enviadas para Marvin, Taylor considerou que o crime assumiu uma espécie de caráter de exibição.

“Para ele, o crime era uma performance, uma demonstração de poder para o espectador. Ele precisava de um espelho”, disse.

Segundo o britânico, em uma pessoa sem características psicopáticas, um ato dessa natureza normalmente provocaria algum tipo de conflito emocional, culpa ou vergonha. Na avaliação dele, o comportamento atribuído a Patrick demonstraria justamente a ausência dessa resposta emocional.

‘Não há nenhum tipo de remorso’, diz Palomba


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime
Reprodução/TV Cabo Branco

Questionado sobre a possibilidade de Patrick ter mudado ao longo dos dez anos de prisão ou desenvolver algum tipo de arrependimento pelo crime, Palomba foi categórico.

“Ele é irrecuperável. Volto a insistir por uma questão de ênfase, totalmente irrecuperável”, afirmou.

O especialista também rejeitou a ideia de que o comportamento de Patrick pudesse ter surgido a partir de um único acontecimento ou de uma espécie de “clique”.

Para Palomba, a existência de comportamentos anteriores ao crime deveria ser considerada na análise. Antes da chacina, Patrick havia esfaqueado um professor em uma sala de aula em Altamira, no Pará.

Segundo relatos da família, ele chegou a passar por avaliações psicológicas e psiquiátricas antes de viajar para a Espanha. Para Palomba, o episódio deveria ter sido encarado como um possível sinal de alerta.

O psiquiatra acrescentou que, embora não conheça integralmente o histórico de Patrick, acredita que poderiam existir outros episódios de alteração de comportamento desde a infância. Essa parte da avaliação, no entanto, é uma hipótese do especialista, já que ele não teve acesso direto ao histórico clínico completo de Patrick.

Alterações no cérebro não significam, necessariamente, menor responsabilidade


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime
Defesa apresentou laudo que atestaria deformidade cerebral de Patrick..

Durante o julgamento na Espanha, a defesa de Patrick apresentou exames de imagem que apontavam diferenças no desenvolvimento de uma região cerebral. A estratégia buscava discutir possíveis limitações relacionadas às capacidades do acusado.

Palomba afirmou que a existência de uma alteração cerebral não seria suficiente, por si só, para definir a responsabilidade penal ou afastar a periculosidade de um indivíduo.

“O que ele tem, ele tem, não há dúvida. Por isso que é incurável, por isso que não dá para você, não existe remédio”, afirmou.

Richard Taylor também destacou que a psicopatia não deve ser confundida com psicose. Segundo ele, uma pessoa com características psicopáticas não necessariamente apresenta alucinações ou perde o contato com a realidade.

“A psicopatia não é uma psicose. Não é uma pessoa que tem alucinações ou que perde o contato com a realidade. É uma pessoa que tem um problema com a emoção: a falta de emoção, a falta de empatia”, explicou.

Taylor citou ainda a PCL-R, escala desenvolvida pelo psicólogo Robert Hare e utilizada na psiquiatria forense para avaliar características relacionadas à psicopatia. Entre os aspectos observados estão ausência de culpa, manipulação, superficialidade emocional, falta de empatia e determinados padrões de comportamento.

O que os psiquiatras dizem sobre Marvin


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Marvin (à esquerda) trocou mensagens com Patrick (à direita), enquanto o segundo matava a família paraibana em Pioz, na Espanha. Marvin (à esquerda) trocou mensagens com Patrick (à direita), enquanto o segundo matava a família paraibana em Pioz, na Espanha

A relação entre Patrick e Marvin é outro ponto que permanece em discussão. Marvin recebeu as mensagens enquanto o crime ainda estava em andamento e chegou a responder ao amigo com orientações sobre como evitar rastros.

O processo contra Marvin foi inicialmente encerrado após uma absolvição sumária, mas acabou reaberto em 2023. A Justiça considerou que havia elementos que poderiam indicar que ele teria instigado ou prestado apoio moral ao crime. O processo segue em tramitação. A defesa de Marvin afirma que a conduta foi reprovável do ponto de vista moral, mas nega que ele tenha cometido crime.

Palomba apresentou uma interpretação sobre a relação entre os dois baseada no conceito de “loucura a dois”, que descreve uma situação em que uma pessoa influencia outra a compartilhar determinadas ideias ou comportamentos.

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“Numa loucura a dois sempre vai ter o indutor e o induzido. (…) O induzido embarcou, então ele pode ter recuperação. O indutor não”, afirmou.

Guido Palomba - Psiquiatra Forense

Segundo Palomba, para que alguém seja influenciado dessa maneira, haveria uma relação de proximidade e uma espécie de vulnerabilidade do indivíduo que recebe a influência.

Trauma permanece para familiares


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime
Marcos, Janaína e os dois filhos do casal foram mortos por Patrick, na Espanha. Foto: Reprodução/Facebook/Janaina Diniz Diniz. Foto: Reprodução/Facebook/Janaina Diniz Diniz

Além da análise sobre Patrick, Taylor destacou os efeitos que um crime dessa dimensão pode provocar nos familiares das vítimas.

Segundo o psiquiatra, a reação inicial diante de um trauma extremo pode envolver choque e negação. Com o passar do tempo, algumas pessoas podem desenvolver transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), com sintomas como pesadelos, insônia, flashbacks, ansiedade e hipervigilância.

Entre os tratamentos utilizados estão a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares, conhecida como EMDR.

Para Taylor, porém, um crime dessa natureza representa um trauma de proporções difíceis de dimensionar para uma família.

Dez anos depois


					Chacina de Pioz: psiquiatras analisam comportamento de assassino 10 anos após crime

Patrick permanece preso na Espanha, onde cumpre as penas de prisão perpétua pelos quatro assassinatos, a pena dele será revisada em 2041. No Brasil, o processo contra Marvin Henriques Correia continua em tramitação.

Para os dois psiquiatras, a forma como Patrick agiu e relatou o crime reforça um dos aspectos mais marcantes do caso: a aparente ausência de empatia e remorso mesmo diante da violência cometida contra a própria família.

Imagem

Gabi Lins

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