CULTURA
Adeus ao mais velho realizador do mundo: o cineasta português Manoel de Oliveira
Com mais de 80 anos de trajetória fílmica, ele esteve a frente de mais de 60 produções, entre longas, médias e curtas-metragens.
Publicado em 03/04/2015 às 5:00
“A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade e não é senhor do seu destino”, declarou Manoel de Oliveira na sua última entrevista para o jornal português Expresso, em 2013. Entre idas e vindas do hospital, seja por causa de uma infecção bacteriana ou insuficiência pulmonar, seu coração de 106 anos não resistiu e parou de bater ontem, na sua casa no Porto, em Portugal.
O realizador não detinha apenas o status do diretor mais longevo da Sétima Arte. Ele estava em plena atividade: o seu último trabalho, o curta-metragem O Velho do Restelo, foi lançado em dezembro do ano passado, em virtude do seu aniversário.
Com mais de 80 anos de trajetória fílmica – quando vinha buscando incessantemente a resposta da questão “O que é cinema?” – Manoel dirigiu mais de 60 produções, entre longas, médias e curtas-metragens.
A obra do cineasta lusitano do Porto é marcada por um estilo 'puro', sem muitos diálogos ou monólogos, mas também por um lado mais teatral devido à nobreza da arte cênica.
Manoel de Oliveira não só era a testemunha ocular mais velha na ativa, como também passou por momentos importantes do cinema, como o advento sonoro e do uso das cores na telona. Seu primeiro filme, o documentário Douro, Faina Fluvial (1931), foi mudo (Oliveira foi muito influenciado pelo cinema vanguardista de Walther Ruttmann).
Estava insatisfeito com as condições cada vez mais difíceis de fazer filmes em Portugal. “Eles (os cineastas), como eu, sempre viveram na precariedade e na insegurança, sem reforma nem subsídio de desemprego, e sem nunca sabermos se não estaremos a fazer o nosso último filme. Eles, como eu, só temos um desejo: todos ambicionamos morrer a fazer filmes”, publicou no artigo de 2010 no jornal O Público.
Dentre seus projetos que não viram a luz de um projetor no cinema, o português queria adaptar vários contos do brasileiro Machado de Assis com A Igreja do Diabo, roteiro que já estava escrito.
Com quase 50 troféus na sua estante, Oliveira recebeu o Leão de Ouro de Veneza em 1985, por O Sapato de Cetim, e em 1991, por A Divina Comédia, além do Prêmio do Júri no Festival de Cannes por A Carta, em 1999, e o Globo de Ouro pela sua carreira, em 2009.
No ano passado, o realizador recebeu a Grande Oficial da Legião de Honra, a mais alta condecoração francesa. Também foi Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1980) e cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1988).
No Brasil, uma abrangente entrevista do mais importante diretor do cinema português é apresentada em Manoel de Oliveira, coedição da Casac Naify com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, organizada por Alvaro Machado.
Em 2009, em João Pessoa, na programação do Cineport, foi exibido diretor Cristóvão Colombo - O Enigma.
Ao volante
Manoel de Oliveira teve vida boêmia e também se dedicou aos esportes, principalmente pelo automobilismo. Através do atletismo, foi campeão nacional de salto com vara.
Uma curiosidade automobilística ligada ao Brasil: na sua carreira de piloto, interrompida nos anos 1940 por causa do seu casamento com Maria Isabel Carvalhais, teve o momento mais alto ao volante de um Ford B8 Especial, onde conquistou um 3º lugar no Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro.
Conheça a filmografia básica de Manoel de Oliveira
Aniki-Bobó (1942). Adaptação de um conto do seu amigo Rodrigues de Freitas, intitulado 'Meninos Milionários', o longa-metragem é uma fábula sobre o universo infantil com traços realistas.
Acto de Primavera (1963). Documentário no qual é encenada uma celebração popular da Paixão de Cristo, festa tradicional da aldeia transmontana da Curalha, em Portugal.
Benilde ou a Virgem Mãe (1974). Baseado em uma peça de teatro de José Régio publicada no Porto. Oliveira considerou a mais importante na afirmação do seu estilo mais 'teatral'.
Amor de Perdição (1978). Adaptação do romance de Camilo Castelo Branco, o filme é concebido numa sucessão de 'quadros vivos', filmados com a câmara imóvel em planos fixos.
O Sapato de Cetim (1985). Leão de Ouro em Veneza, o longa de quase sete horas de duração pega emprestado a peça homônima de Paul Claudel para falar sobre uma paixão na nobreza espanola.
OS CANIBAIS (1988). Indicado à Palma de Ouro em Cannes, é realizado num estilo de ópera, baseada na obra de Álvaro do Carvalhal , escritor português da literatura fantástica e de horror.
Non ou A Vã Glória de Mandar (1990). Retrato da história de Portugal a partir de flashbacks de um soldado na marcha dos portugueses a uma colônia lusitana na África em 1973.
A Divina Comédia (1991). Num manicômio, os pacientes assumem personalidades de figuras bíblicas e mitológicas que recitam Dante Alighieri no seu dia a dia. Grande Prêmio do Júri em Veneza.
Vale Abraão (1993). Jovem de uma beleza 'ameaçadora' se casa com amigo de seu pai. Ele a ama profundamente, mas não é correspondido pela cônjuge, que decide arrumar um amante.
A Carta (1999). Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o longa também sobre desilusões amorosas é baseado no livro 'A Princesa de Clèves', de Madame de La Fayette, publicado em 1678.
Palavra e Utopia (2000). O ator Lima Duarte interpreta o Padre Antônio Vieira, que luta pela liberdade e melhor tratamento dos índios e pela abolição da escravidão no Brasil, durante o século 17.
O Estranho Caso de Angélica (2010). O roteiro foi escrito pelo diretor em 1952, inspirado em experiências da sua vida envolvendo um fotógrafo que quer registrar vinhedos e uma jovem morta.

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