Comparado a Chicó, paraibano Zé de Cila diz que citação no Enem 2021 foi ‘melhor notícia da vida’

A bodega do contador de histórias se tornou um ponto turístico em Cabaceiras.

Zé de Cila na frente da bodega dele, em Cabaceiras, na Paraíba

O paraibano Zé de Cila, muito conhecido em sua cidade, Cabaceiras, na Paraíba, foi citado na edição deste ano do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na cidade onde mora, Zé tem uma bodega, uma mercearia pequena mais comum em cidades do interior. que  se tornou um ponto turístico.

“Eu me senti muito feliz. Essa notícia de ontem foi uma das melhores da minha vida”, disse o paraibano sobre ter sido citado em uma prova feita por milhares de estudantes em todo o país.

Na pergunta, ele é comparado com Chicó, um dos protagonistas do Auto da Compadecida, obra gravada na cidade, justamente pela semelhança no comportamento dos dois. Veja a íntegra do texto, retirado do artigo “Ator por um dia” da professora doutora Vivian Galdino de Andrade (2009) abaixo.

“Famoso por ser o encantador de viúvas da cidade de Cabaceiras, na Paraíba, Zé de Sila é um contador de histórias parecido com o personagem Chicó, do Auto da Compadecida. Ele defende veementemente que a oração da avó sustentava mais a chuva. “Quando era pequeno e chovia por aqui, ajudava minha avó colocando os pratos emborcados no terreiro par diminuir o vento. Ela fazia isso e rezava para a chuva durar mais”.

O paraibano diz que sempre gostou de contar as histórias vividas por ele. Inclusive, a que foi mencionada no Enem. “Quando estava chovendo bastante em Cabaceiras, com vento, minha avó jogava aqueles pratos. Um, dois, três… Ela jogava porque queria que os pratos aliviassem o vento. Queria que chovesse mais, mas chovesse fino”, relembrou.

E se alguém suspeitar de que – como duvidavam de Chicó, no filme – as histórias de seu Zé são fantasiosas demais para serem verdade, ele pondera: “não minto e nem gosto de quem mente”.

Com uma vida inteira de aventuras para serem contadas, ele também lembra das suas “pegadinhas” com o povo de Cabaceiras. É que Zé se fantasiava e recriavas lendas como a do lobisomem e de fantasmas com o intuito de assombrar a cidade. E conseguia.

“Não era por maldade, mas fazia pelo divertimento. Desde pequeno eu gostava de assustar as pessoas e ninguém nem imaginava que era eu ali. A cidade não sabia que eu quem fazia o mal assombrado”, disse.

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Cila era a mãe de Zé. Por isso, ele ficou conhecido como Zé de Cila, já que é comum em cidades interioranas se referir a alguém relacionando o nome da pessoa com os dos pais dela.

A Bodega de Zé de Cila está localizada entre o letreiro da “Roliúde Nordestina”, que é como a cidade ficou conhecida após ser cenário de dezenas de produções audiovisuais, e um museu da cidade. Na venda, ele oferece um pouco de tudo: bebidas, calçados, acessórios de vestuário e também de cozinha. A fachada do negócio, tão alegre quanto o dono, é amarela e tem cactos pintados.

O paraibano garante, inclusive, que já fez figuração em muitos filmes. Segundo ele, foi até dublê do personagem de Rogério Cardoso, o padre João, no filme O Auto da Compadecida. Por isso, recebe os turistas em seu pequeno estabelecimento vestido com uma batina.

O tempo de passagem por Cabaceiras poderia ser preenchido totalmente com a companhia do simpático e atencioso senhor, que com mais de sete décadas de vida, tem histórias de sobra para contar. E, cada uma delas, narrada com riqueza de detalhes.

Uma delas, a mencionada no Enem, é que lhe rendeu o apelido de “Encantador de Viúvas”. O apelido se deu pelo fato dele sempre acabar se relacionando com uma mulher viúva e mais: sem ser de propósito. “As vezes eu estava conversando e a moça dizia que era dona de uma padaria e viúva. Aí eu caía na risada”, contou.

As histórias contadas são apenas algumas do gigantesco repertório do seu Zé, que além da sua própria vida, contam também a história de um povo criativo, engraçado e multifacetado, assim como ele. “Quero que todos os paraibanos venham aqui para que possa contar tudo a vocês. Chegando aqui, vocês estão em casa”. E dá vontade mesmo de entrar, sentar e tomar um café ouvindo as histórias de um caririzeiro que tem, realmente, o que contar.