EDUCAÇÃO
Métodos de estudo: psicopedagoga explica como usar técnicas que viralizam nas redes sociais
Active recall, Feynman, Kay Chung e vela ou gelo prometem ajudar na concentração e na aprendizagem. Será que funcionam mesmo?
Publicado em 14/09/2026 às 9:00

Você abre o TikTok para dar aquela “pausinha” no estudo e, de repente, aparece alguém mostrando uma rotina de oito horas, vários marca-textos, cronômetro, flashcards e uma mesa impecável. Aí vem a dúvida: será que esses métodos de estudo que viralizam nas redes sociais realmente ajudam quem está se preparando para o Enem?
Entre as estratégias que ganharam fama na internet estão o active recall, a técnica Feynman, o método Kay Chung e até métodos que usam uma vela ou um cubo de gelo para marcar o tempo de estudo.
Mas copiar exatamente a rotina de alguém da internet não significa, necessariamente, estudar melhor. Para entender o que pode funcionar de verdade, o Lá Vem o Enem conversou com a psicopedagoga Luana Ribeiro.
4 métodos de estudo mais viralizados nas redes sociais
As quatro estratégias têm propostas diferentes. Algumas ajudam o estudante a recuperar informações da memória, outras a identificar se ele realmente entendeu um conteúdo e há ainda aquelas que funcionam principalmente como um incentivo para começar a estudar.
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O ponto em comum, segundo a psicopedagoga, é que nenhuma delas deve ser tratada como uma fórmula mágica. O estudante precisa entender para que serve cada técnica e perceber se ela combina com seu próprio jeito de aprender.
Active recall
Sabe quando você termina de ler uma matéria e pensa “acho que entendi”? Pois é. O active recall parte justamente da ideia de testar se esse conhecimento está realmente disponível na memória.
A técnica consiste em tentar recuperar uma informação sem consultar o material. Pode ser respondendo perguntas, escrevendo o que lembra sobre determinado assunto ou tentando explicar um conteúdo de cabeça.
Segundo Luana Ribeiro, o principal benefício está em fazer o estudante perceber a diferença entre reconhecer uma informação e realmente conseguir recuperá-la e utilizá-la.
“Do ponto de vista psicopedagógico, o valor do active recall está menos na técnica isolada e mais no que ela desenvolve: a capacidade de o estudante monitorar a própria aprendizagem e perceber a diferença entre reconhecer uma informação e realmente saber utilizá-la”, explicou.
Quando o aluno relê uma matéria várias vezes, pode sentir que já domina aquele conteúdo porque ele parece familiar. O problema é que essa familiaridade não garante que a pessoa conseguirá lembrar da informação sozinha durante uma questão do Enem.
Ao tentar responder sem olhar o material, o estudante consegue perceber quais partes realmente aprendeu e quais ainda precisam de revisão. É justamente essa diferença que pode passar despercebida quando o estudo fica restrito à releitura.
A psicopedagoga explica que esse é um problema mais comum do que parece: o aluno pode passar horas estudando, mas só descobrir durante uma prova que não consegue recuperar ou aplicar aquilo que leu.
“Trabalho muito essa distinção porque, muitas vezes, o problema não é a falta de estudo em si. O aluno estudou, passou horas diante do material, mas confundiu familiaridade com aprendizagem e só percebe na hora da prova que ainda não consegue recuperar ou utilizar aquele conhecimento”.
Técnica Feynman
A técnica Feynman funciona como um teste para descobrir se você entendeu mesmo um assunto ou apenas decorou algumas informações.
A ideia é simples: depois de estudar, tente explicar o conteúdo com palavras bem fáceis, como se estivesse ensinando aquilo para outra pessoa que nunca viu o assunto.
Na avaliação da psicopedagoga, esse exercício ajuda o estudante a participar de forma mais ativa da própria aprendizagem. Em vez de depender somente de alguém dizendo se ele aprendeu ou não, consegue perceber por conta própria onde estão as dificuldades.
E tem um detalhe importante: travar durante a explicação não significa que você “não sabe nada”. Na verdade, esse momento pode mostrar exatamente qual parte do conteúdo ainda precisa ser aprofundada.
“Quando o estudante trava ao tentar explicar algo de maneira simples, esse momento é muito valioso. O travamento mostra onde a compreensão ainda precisa ser aprofundada, o conteúdo passa a ficar menos abstrato e mais palpável a cada explicação. O problema é que muitos alunos pulam essa etapa e continuam decorando, porque decorar pode parecer mais fácil do que organizar uma ideia e explicá-la”, afirma Luana.
A especialista também alerta que cada estudante tem um processo diferente. Algumas pessoas precisam de mais tempo e apoio para identificar suas próprias lacunas. Por isso, ter dificuldade com determinado assunto não deve ser interpretado automaticamente como falta de capacidade.
Não entender alguma coisa de primeira faz parte do processo de aprendizagem.
Método Kay Chung
O método Kay Chung leva o nome da estudante e criadora de conteúdo norte-americana Kay Chung, que ficou conhecida no TikTok por compartilhar sua rotina de estudos como estudante de Odontologia da UCLA, nos Estados Unidos. Os vídeos dela viralizaram principalmente entre o público do StudyTok, comunidade do TikTok dedicada a conteúdos sobre estudos, produtividade e rotina acadêmica.
Na prática, esse método é bem parecido com o Active Recall: o estudante lê um conteúdo, fecha o material e tenta lembrar o que acabou de estudar. Depois, identifica o que não conseguiu recuperar e volta a esses pontos.
🤔 Mas então qual é a diferença para o active recall? Apesar de os dois envolverem tentar lembrar o conteúdo sem consultar o material, eles não são sinônimos. O active recall é uma técnica que pode ser usada de várias maneiras, como responder perguntas, fazer flashcards ou explicar um assunto de memória. Já o método Kay Chung ficou conhecido como uma forma mais estruturada de organizar o estudo, com etapas de leitura, registro do que não foi lembrado, revisão e novas tentativas de recuperação.
Para Luana Ribeiro, um dos aspectos positivos está justamente em transformar o desempenho do próprio estudante em uma informação sobre o que precisa ser revisado.
“Isso pode favorecer a autorregulação da aprendizagem, ou seja, a capacidade de perceber o que está funcionando, identificar dificuldades e ajustar a própria estratégia em vez de estudar tudo da mesma maneira”.
Mas é importante falar que, nas redes sociais, o método Kay Chung também ficou associado à rotina intensa de estudos da criadora, com longas jornadas, cafeína e noites em claro. Mas atenção: seguir a estratégia não significa copiar esse ritmo.
A psicopedagoga alerta que uma rotina de estudos baseada em excesso pode comprometer justamente aquilo que o aluno quer melhorar: o funcionamento cognitivo.
“Não é recomendável transformar a alta performance em uma competição de quem estuda mais horas, dorme menos ou consegue permanecer mais tempo sem pausas. Virar a noite estudando, estudar durante horas seguidas sem descanso ou tentar reproduzir uma rotina extrema pode comprometer justamente aquilo que o estudante está tentando melhorar: seu funcionamento cognitivo”, comenta.
E aqui entra um ponto que costuma ser deixado de lado nos vídeos de produtividade: sono também faz parte do estudo.
Durante o sono acontecem processos importantes ligados à consolidação e à organização das informações aprendidas. Por isso, trocar descanso por mais horas diante dos livros pode até dar a sensação de produtividade, mas não significa necessariamente que a aprendizagem será melhor.
Além disso, insistir repetidamente em uma tarefa pode aumentar a frustração de estudantes que já enfrentam dificuldades de atenção, memória ou ansiedade relacionada à escola.
“Para alguns alunos, especialmente aqueles com ansiedade escolar ou dificuldades relacionadas à atenção e à memória, repetir sucessivamente aquilo que não conseguiram lembrar pode aumentar a frustração. Nesses casos, é importante variar a forma de estudar, fazer pausas e espaçar as tentativas de recuperação”, disse Luana.
Vela e gelo
Esse método pode parecer meio aleatório à primeira vista: usar uma vela ou um cubo de gelo até derreter para marcar o tempo de estudo. Mas a ideia por trás da estratégia é usar um marcador visual para ajudar o estudante a começar.
Para alguns alunos, principalmente aqueles que têm dificuldade de atenção ou organização, o maior desafio nem sempre é estudar. É simplesmente sentar e dar o primeiro passo.
Nesse sentido, a vela ou o gelo podem funcionar como um estímulo externo para organizar o início da tarefa.
“Um marcador visual pode funcionar como um estímulo externo para ajudar o estudante a se organizar e dar o primeiro passo. Nesse sentido, pode ter utilidade. O risco é confundir o tempo sentado estudando com aprendizagem. Cumprir duas ou três horas diante do material não significa, necessariamente, que houve compreensão, retenção ou avanço”.
Ou seja: a vela pode ajudar você a sentar e começar, mas ela não vai ensinar matemática, história ou biologia sozinha. O que faz diferença é combinar o tempo reservado para o estudo com uma estratégia que realmente favoreça a aprendizagem.
Também não vale transformar o marcador em uma obrigação rígida.
“Também é importante não transformar o marcador de tempo em uma obrigação rígida. Se o estudante está cansado, com sono ou percebendo uma queda importante de atenção, insistir apenas para ‘cumprir a meta’ pode ser contraproducente”.
É melhor escolher um único método de estudo?
Não existe uma técnica que seja automaticamente a melhor para todos os estudantes. A estratégia ideal depende do perfil da pessoa, do objetivo e até do tipo de conteúdo que está sendo estudado.
Segundo Luana, o mais importante é encontrar o encaixe entre a estratégia e a necessidade de cada estudante.
“Na perspectiva psicopedagógica, não existe um método universalmente melhor, o que existe é encaixe entre a estratégia, o perfil do estudante e a exigência da tarefa. Essa combinação é o que dá a receita perfeita para cada pessoa. É um processo bem particular e adaptável ao longo do tempo”.
Ela também lembra que a capacidade de concentração diminui depois de um período de estudo contínuo e que pequenas pausas podem ajudar na recuperação do desempenho. Nesse momento, é preciso ter cuidado para que o intervalo não vire uma longa sessão nas redes sociais.
Na prática, é possível combinar técnicas. Um estudante pode, por exemplo, usar um cronômetro para facilitar o início da tarefa, recorrer ao active recall para verificar o que conseguiu recuperar da memória e usar a técnica Feynman quando precisar aprofundar a compreensão de determinado conteúdo.
“Na prática, o estudante pode usar um cronômetro ou outro marcador para facilitar o início da tarefa, utilizar o active recall para verificar o que conseguiu aprender e recorrer à técnica Feynman quando precisar aprofundar a compreensão de um assunto. Mas essa combinação precisa fazer sentido para aquele estudante. Não adianta acumular técnicas apenas porque todas estão em alta nas redes sociais”.
Como testar uma técnica de estudo pela primeira vez?
Antes de decidir se um método “funciona”, vale observar o próprio processo. O estudante pode testar a estratégia por alguns dias e perceber se conseguiu compreender melhor, lembrar do conteúdo depois, identificar dificuldades e manter a atenção.
A recomendação é começar de forma realista. Em vez de tentar copiar uma rotina extrema de internet logo no primeiro dia, o ideal é construir aos poucos uma forma de estudar que realmente possa ser mantida durante a preparação para o Enem.
“Também recomendo começar de forma realista. Não é necessário reproduzir uma rotina extrema ou tentar estudar muitas horas no primeiro dia. É melhor construir um método sustentável, que possa ser mantido ao longo do tempo. O ato de simplesmente sentar, desativar as notificações e começar a escrever livremente o que sabe e o que ainda não sabe, em si, já é uma iniciativa ‘quebra-gelo’ para superar a autocobrança do excesso”, finaliza a psicopedagoga.
Nesse sentido, alta performance não precisa significar fazer o máximo possível todos os dias. A ideia é buscar uma rotina que permita ao estudante funcionar bem dentro da própria realidade, sem transformar o desempenho de outra pessoa em uma régua para medir o próprio valor.
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