Verônica: três histórias de preconceito e discriminação

Hoje com 44 anos, Verônica Lourenço, luta desde a infância contra o preconceito. E olha que tudo começou na sala de aula.

– Você é burra! Não sei pra quê preto estuda, se nunca vai entender nada – dizia, destilando ódio em frases garrafais, a professora da escola em que, aos seis anos, Verônica estudava.

Cansada da discriminação, a menina deixou de ir à escola e passou a ocupar seu tempo com longas estadias em uma praça perto do local. Isso, porém, fez com que sua irmã fosse chamada pela direção.

No dia em que sua irmã chegou à escola, porém, a professora parecia-lhe outra. Colocou as mãos por cimas de seus ombros, em uma amorosa afeição, e repetia, de forma singela, que não entendia porque as ausências. Não faziam sentido suas fugas.

Aparentemente resolvida a questão, ao sua irmã virar as costas, no entanto, a professora, em desatino, a afasta bruscamente e, mais uma vez, começa a soltar verbos em desalinho:

– Isso só pode ser coisa de preto! Coisa de preto, que não quer nada com a vida.

Verônica só conseguiu mudar de série dois anos depois. Somente quando a tal professora em questão foi afastada, dando lugar a uma outra profissional – negra, tal qual seu reflexo. A ferida, então, deixou de ser exposta – curava-se uma chaga e iniciava-se, de fato, uma educação.

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De macaquito, chinelo e camiseta, Verônica dirigiu-se, ao lado de sua companheira, ao hall de um hotel na cidade do Recife. Ali, resolveram passar um período de suas férias. Ela, negra, cabelo estilo "black", com mais de 1,70 m de altura; sua companheira, branca, vestida da mesma forma que Verônica: de macaquito, chinelo e camiseta. Tudo parecia correr como deveria: ambas despojadas ansiavam pelos dias de descanso. Ao chegar ao balcão do hotel, no entanto, em busca da reserva, Verônica é surpreendida com a abordagem do gerente.

– Aqui é um ambiente familiar. Se você está procurando acompanhante, é melhor você se retirar logo daqui – disse o gerente, dirigindo-se exclusivamente à mulher negra que ali se postava em sua frente, deixando clara sua suspeita de que Verônica, na verdade, tratava-se de uma prostituta buscando promover o turismo sexual.

Sentindo-se desrespeitada com a situação, mas, nem por isso, deixando de se orgulhar da cor que ostenta em sua pele, Verônica impôs sua voz, como em tantos outros episódios de racismo foi obrigada a fazer:

– Eu, na verdade, tenho uma reserva neste hotel – argumentou. – Mas, agora, não vou ficar mais aqui para contribuir com o sustento de um local como esse que, claramente, faz vítimas do racismo.

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Outra vez, na entrada do seu próprio prédio, em um bairro nobre da Grande João Pessoa, Verônica foi surpreendida pelas palavras hostis de quem, às cegas, enxerga apenas a cor da pele, sem dar vez, no entanto, à voz da dignidade.

Ao entrar no elevador, acompanhada, também, da sua, à época, companheira (que era branca), uma vizinha, cuja presença nunca havia visto, dirige-se a ela e diz, em voz alta, em tom de escárnio:
   
– Olhe só, o elevador social é apenas para os condôminos. Você deve usar o de serviço.

Ao que Verônica responde, sem pestanejar:

– Bom dia. Eu gostaria apenas que você soubesse que eu pago o aluguei tanto quanto você. Sou moradora, e não empregada -, diz Verônica, construindo forças para mais uma vez enfrentar o inimigo que embora se faça oculto, lhe aparece nas mais diversas situações, nos momentos mais casuais.

E continua:

– E você sabia que o que você está fazendo é racismo e que, no Brasil, isso é crime? Porque você está me julgando e me colocando em uma situação apenas pelo fato de eu ser negra.

A mulher, sem graça, pede desculpas. Não era sua intenção parecer racista. Sem saber, no entanto, que ela não parecia. Simplesmente já era.