Regeneração de floresta desmatada leva mais de três décadas, diz estudo da UFPB

Segundo a pesquisa a mata leva mais de 35 anos para se recuperar após desmatamento.

Foto: divulgação/mppb
Foto: divulgação/mppb

No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado nesta sexta-feira (5), pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) chamam atenção para o tempo em que a floresta desmatada leva para se regenerar. Segundo o pesquisador Patrício Rocha, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da UFPB, “uma vez que se degrada uma área florestal, ela vai demorar muito mais de três décadas para voltar a um estado original”.

Ele chegou a conclusão após orientar  uma pesquisa científica de um aluno da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O artigo foi publicado pela revista científica Biologia e Conservação Neotropical, no mês de abril. Também são autores do trabalho os pesquisadores da UFS Eduardo Vinícius Oliveira e Adauto Ribeiro, e Ana Paula Nascimento, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O estudo buscou responder se 35 anos são suficientes para promover a regeneração de um fragmento florestal. A área de estudo foi a Floresta Nacional do Ibura, do bioma Mata Atlântica, localizada no estado de Sergipe e cuja vegetação é composta por uma área florestal nativa preservada e uma área em regeneração, onde há um sub-bosque em sucessão secundária, misturado com antigas plantações de eucalipto, abandonadas há 35 anos. Essa área de eucalipto tem uma extensão de 20,28 hectares, 20% do total.

Os autores do estudo mediram parâmetros da estrutura vegetacional e concluíram que o período de 35 anos não foi suficiente para a recuperação da área de eucalipto, que ainda se encontra em estágio sucessional mais inicial que a área florestal. “Para devastar é muito rápido, mas para regenerar leva muitas décadas. Após a perturbação, a floresta não recupera 100% de sua riqueza”, comenta Patrício Rocha.

 

Eucalipto

 

O pesquisador explica que várias abordagens sugerem o uso de espécies de eucalipto para recuperação de áreas florestais. “Dentro dessa perspectiva, nosso estudo aborda a importância das espécies nativas para recuperação de áreas degradadas. No nosso exemplo, as espécies nativas foram fundamentais para colonizar e suceder na regeneração da área de eucalipto abandonada, e não o contrário”, revela.

A pesquisa também enfatiza a importância e necessidade de estudar as muitas aplicações da fitossociologia na avaliação da regeneração natural, principalmente porque fornece subsídios para restauração ecológica. Diante disso, o estudo buscou analisar a composição e os parâmetros fitossociológicos da vegetação arbustiva e arbórea em áreas de plantio de eucalipto e áreas de floresta nativa, com o objetivo de analisar o tempo suficiente para restabelecimento da área abandonada com plantação de eucalipto, após décadas de sucessão natural.

“Nossos dados nos mostram que ainda existem diferenças significativas entre os parâmetros utilizados: composição de espécies, número de indivíduos, grupos ecológicos, além da diferença significativa na estrutura vegetal – área basal, densidade relativa e dominância relativa. Esses dados foram fundamentais para definir que a área de eucalipto ainda se apresenta em um estágio de sucessão inferior à floresta nativa”, explica o pesquisador.

Por outro lado, o plantio de eucalipto favoreceu a chegada das espécies mais comuns na área florestal, caracterizadas como pioneiras, enquanto a área de mata apresentava domínio de espécies secundárias e tardias. “Nem todas as espécies nativas colonizaram áreas contendo eucalipto, possivelmente, porque a Corymbia citriodora gera mudanças nas condições do habitat natural e, portanto, pode causar barreiras limitantes ao estabelecimento de espécies nativas, como a alta frequência de luz que inibe a chegada de espécies secundárias; o efeito alelopático (danoso) de C. citriodora; e a desertificação causada pelo desmatamento”, conta o professor.

 

Reabilitação

 

Os pesquisadores recomendam cautela e planejamento no uso do eucalipto, considerada uma espécie exótica homogênea. Conforme o estudo, deve-se dar prioridade ao plantio de espécies nativas com alta capacidade de colonização na recuperação de áreas degradadas.

“Em nosso estudo, vimos que a presença do eucalipto pode ter limitado a chegada de algumas espécies, destacando-se as espécies que apresentam alta tolerância à luminosidade, caracterizadas como espécies de sub-bosque. Esse comportamento é amplamente destacado nos estudos de comunidade de vegetais”, afirma Patrício.

Segundo o pesquisador, pode ser um risco o uso de espécies exóticas, pois elas podem apresentar alta competitividade com as espécies nativas, limitando-as, ou mesmo por desempenhar características de espécies invasoras com potencial efeito alelopático, ou seja, que causa dano em outro organismo, devido à liberação no meio ambiente de metabólitos secundários tóxicos.

Patrício Rocha avalia que, embora o eucalipto seja indicado como espécie facilitadora, são necessários estudos adicionais para investigar a contribuição precisa dessa espécie exótica para a regeneração natural.

O estudo demonstrou que nem todas as espécies nativas foram capazes de assentamento na área de eucalipto. Para Patrício Rocha, é importante uma “fonte florestal natural nas proximidades da área a ser regenerada, assim, as espécies nativas contribuem melhor para a resiliência local e podem recuperar uma parcela significativa da biodiversidade devido a sua proximidade”.

O professor Patrício observa, ainda, que não se tem um período exato para a regeneração na Mata Atlântica, porém pode-se esperar que ocorra uma estabilidade na regeneração, principalmente quando o fragmento encontrar a estabilidade na chegada de espécies e na abundância do estrato de regeneração em seu bosque.

“A velocidade dos processos de regeneração, basicamente, dependerá da variação da composição e abundância das espécies existentes (heterogeneidade local), como da facilidade de chegada de sementes (capacidade de colonização) de fragmentos vizinhos, recuperação estrutural das áreas (crescimento das árvores), das condições climática locais, e, principalmente, do nível de perturbação que a área sofreu e ainda sofrerá no durante sua regeneração”.