Angélica Nunes
Laerte Cerqueira

Sem justificativa convincente, suspensão de vacinação de adolescentes é criticada e gera insegurança

Os argumentos foram sendo derrubados pela própria realidade, mesmo com toda habilidade que o paraibano Marcelo Queiroga já demonstrou quando precisa proteger equívocos do governo. 

Vacinação contra a Covid-19 em Campina Grande. Foto: Codecom/PMCG
Vacinação de adolescentes sem comorbidades foi suspensa pelo MS. Foto: Breno Esaki/ Agência Saúde

A nota técnica do Ministério da Saúde, que oficializou a orientação para os estados e municípios suspenderem a vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades, foi publicada no fim da noite da quarta-feira (15). Pegou gestores da saúde e técnicos de surpresa. A manhã de ontem (16), foi de dúvidas. O dia inteiro foi de explicações. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, até que tentou convencer, mas não conseguiu. As pontas não fechavam.

Os argumentos foram sendo derrubados pela própria realidade, mesmo com toda habilidade que o paraibano já demonstrou quando precisa proteger equívocos do governo.

Queiroga culpou estados e municípios por desorganizar o Plano Nacional de Imunização, adiantando a vacinação e bagunçando o “coreto”. A fala foi registrada em entrevista exclusiva no JPB1, das TVs Cabo Branco e Paraíba. De fato, há muitas distorções e os MPs (Federal e Estaduais) estão de olho. Mas, daí, colocar freio na vacinação por isso. Não se sustentou.

Dizer que a OMS não recomenda a vacinação para esse público também não colou. Até porque a OMS, segundo especialistas, também não diz que não deve ser feito. E o mais importante: a Anvisa, órgão brasileiro responsável pela liberação, aprova a vacinação do público. Fez depois de estudos. Inclusive, ontem, emitiu nota afirmando que mantém posicionamento porque os potenciais riscos são muito menores que os benefícios.

A morte investigada em São Paulo e algumas casos adversos, menos de 1% dos adolescentes vacinados, também foram usados como motivos para suspensão. Mas, várias sociedades e associações médicas destacaram que os casos de intercorrências investigados não justificam uma decisão tão prejudicial, que traz tanta insegurança.

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Os Conselhos de Secretários de Saúde de Estados e de Municípios emitiram nota também sem entender o que estava acontecendo. Em nota, lamentaram as decisões do Ministério da Saúde. Os órgãos defenderam a autorização dada pela Anvisa e o uso em diversos países e disseram que a decisão do ministério foi tomada “unilateralmente e sem respaldo científico”.

“Enquanto executores desta importante política pública, Conass e Conasems, baseados nos atuais conhecimentos científicos, defendem a continuidade da vacinação para a devida proteção da população jovem, sem desconsiderar a necessidade de priorizar neste momento dentre os adolescentes, aqueles com comorbidade, deficiência permanente e em situação de vulnerabilidade”, registraram.

Uma outra justificativa possível, mas essa não foi levantada pelo governo, é a quantidade insuficiente de doses da Pfizer, única vacina que pode ser aplicada em adolescentes, de acordo com estudos e decisão da Anvisa. O imunizante também está sendo usado para aplicação da segunda dose, onde não há mais AstraZeneca e ainda nas doses de reforço.

A tese de falta de doses, no entanto, é rechaçada pelo ministro, que, no dia anterior, afirmou que no Brasil tem excesso de vacinas.

Enfim: decisão intempestiva, sem consultar técnicos, secretários de saúde, com explicações (ainda) frágeis, o que gerou insegurança e muita desinformação.

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