O sonho de comandar o Executivo da Paraíba durou apenas oito meses e dezesseis dias para Antônio Mariz. Eleito em 1994, o político, que construiu uma das carreiras mais sólidas do estado, assumiu o Palácio da Redenção com a promessa de focar no combate à fome e na redução das desigualdades. No entanto, o mandato foi tragicamente interrompido por um câncer, que levou à sua morte em 16 de setembro de 1995, aos 57 anos.
Apesar do pouco tempo no poder, os meses de Mariz à frente do estado foram marcados por decisões emblemáticas, obras hídricas emergenciais e pela transição do poder para o seu vice, José Targino Maranhão.
Esta reportagem é o terceiro episódio da série especial “Governadores: A História do Executivo na Paraíba”, projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, idealizado pelo repórter Guilherme Bezerra e com reportagens do repórter Gustavo Demétrio.
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Trajetória e destaque nacional
Formado em Direito e com graduação em Ciência Política na França, Antônio Mariz da Silva teve uma ascensão rápida na política paraibana. Após retornar ao Brasil e ingressar no Ministério Público, ele começou a atuar na Casa Civil durante o governo de Pedro Gondim.
Para o historiador Lúcio Flávio, entrevistado pela equipe de reportagem da série, a trajetória de Mariz foi exemplar desde a juventude, o que credenciou ele a se tornar uma figura histórica para a política no estado.
"Ele foi eleito prefeito de Sousa, uma cidade importantíssima do Sertão, em 1963, com apenas 26 anos de idade", relembrou.
Antes de chegar ao governo do estado, ele acumulou um extenso currículo:
- Foi secretário de Educação e Cultura no governo João Agripino;
- Elegeu-se deputado federal por quatro mandatos;
- Atuou como diretor do Banco Nacional da Habitação;
- Foi eleito senador em 1990;
Foi no Senado Federal que Mariz ganhou projeção em todo o país ao assumir um papel histórico na política nacional no início dos anos 1990.
"Poucas pessoas lembram disso, mas ele foi o relator do processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. O parecer dele foi amplamente aprovado e culminou no afastamento do presidente", explicou Lúcio Flávio.
A eleição de 1994 e a exigência pelo vice

Com o destaque nacional e um consequente favoritismo dentro do próprio partido, o PMDB, Mariz chegou forte para as eleições ao governo da Paraíba em 1994. A escolha do seu companheiro de chapa, no entanto, gerou debates internos que mudaram a história recente do estado.
Segundo a viúva do ex-governador, Mabel Mariz, a cúpula do partido tinha outras preferências, mas ele foi irredutível, queria José Targino Maranhão, o Zé Maranhão, para o vice.
"A escolha do vice foi muito difícil porque, naquela época, Ronaldo (Cunha Lima), Cícero (Lucena), todos queriam que fosse outro candidato. E Mariz disse que só seria candidato se fosse Maranhão o vice. Eles cederam e ficou Maranhão mesmo", explicou.
Nas urnas, Mariz enfrentou Lúcia Braga (PDT), Avenzoar Arruda (PT), Francisco Evangelista (PPR) e Jacir Lima (PMN). No primeiro turno, o candidato do PMDB obteve 46,5% dos votos, contra 43% de Lúcia Braga. A vitória definitiva veio no segundo turno, quando Mariz se elegeu com mais de 58% da preferência dos paraibanos.
Na despedida do Senado para assumir o governo, ele discursou sobre o objetivo que perseguiu por décadas.
"Preparei minha vida toda para governar a minha terra. Dediquei minha vida inteira a esse objetivo. Talvez o que me diferencie da maioria dos políticos seja o fato de que não adulo poderosos. Ajo em nome de princípios e valores que julgo expressarem as mais profundas aspirações e padrões de conduta de um povo", declarou Mariz.
'Governo da solidariedade' e remoção de símbolos nazistas

Em 1º de janeiro de 1995, Antônio Mariz tomou posse com o slogan "Governo da Solidariedade". O ex-deputado estadual Inaldo Leitão, escolhido como líder do governo na Assembleia Legislativa do estado logo no primeiro dia de mandato, afirma que o foco da gestão era humanitário.
"Ele queria cuidar das pessoas. Falava muito em combate à fome e à pobreza", recordou.
A gestão também foi marcada por uma ação de forte simbolismo histórico logo no início. Ao chegar ao Palácio da Redenção, sede do Executivo, Mariz se deparou com o piso decorado com suásticas nazistas. Esses símbolos haviam sido instalados por Argemiro Figueiredo, interventor da Paraíba entre 1937 e 1940.

"A primeira medida, quando ele deparou-se com aquilo, foi mandar retirar esses mosaicos. Porque aquilo era um símbolo de sobrevivência do período autoritário no Brasil", explicou o historiador Lúcio Flávio.
Com uma visão voltada para o desenvolvimento do Sertão, o governador correu contra o tempo. Em apenas nove meses de gestão, em parceria com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ele conseguiu viabilizar a construção do Canal da Redenção, obra hídrica projetada para levar as águas do açude de Coremas para áreas do município de Sousa.
O avanço da doença e a despedida
A urgência de Mariz em aprovar projetos esbarrava em sua própria condição física. O diagnóstico de um câncer havia sido constatado ainda durante a campanha eleitoral.
"Ele aceitou porque não tinha outra maneira. Continuou trabalhando até se acamar", relatou o líder do governo à época e amigo, Inaldo Leitão.
O quadro se agravou no dia 1º de maio de 1995. O governador passou mal durante uma missa em Sousa e precisou retornar a João Pessoa. Após pressão de aliados políticos, como Humberto Lucena e Ronaldo Cunha Lima, ele aceitou viajar para São Paulo para continuar o tratamento com quimioterapia, que acabou não surtindo o efeito esperado.
Ciente de que o fim estava próximo, Mariz protagonizou cenas de despedida que marcaram seus aliados. Leitão relembra uma frase dita pelo governador ao amigo Ronaldo Cunha Lima, já na reta final da vida:
"Ronaldo, eu, quando tinha saúde, perdi a eleição. Agora ganhei a eleição e perdi a saúde”, relembrou.
O ex-deputado estadual Walter Brito lembrou também em entrevista de ter sido chamado, junto com a bancada governista, à Granja Santana, residência oficial do governador, assim como outros aliados
"O Mariz estava sentado num quarto, de paletó e gravata. Ele apertava a mão da gente e dizia: 'Olha, eu quero agradecer o apoio que você me deu'. Foi como se fosse uma despedida da vida política de cada um da gente", relata.
Morte e luto nacional
Na manhã do sábado, 16 de setembro de 1995, a imprensa que aguardava o boletim médico na Granja Santana foi informada do falecimento do governador.
A morte gerou comoção e parou João Pessoa. A Praça João Pessoa foi tomada por uma multidão, e o corpo foi levado em um caminhão do Corpo de Bombeiros até o cemitério Senhor da Boa Sentença.
O então presidente da República em exercício, Marco Maciel, viajou à Paraíba e decretou luto oficial de três dias em todo o território nacional, destacando em documento os "relevantes serviços à nação" prestados por Mariz.
Para as filhas do político, Luciana e Adriana Mariz, o legado do pai vai além das obras de seus curtos oito meses de governo, residindo na forma como ele enxergava a administração pública.
"Ele via a política como um meio para servir aos mais necessitados, como um instrumento de transformação social", disse Adriana.
Elas resgatam um trecho do discurso de posse do pai para resumir o seu perfil idealista: "Muitos que me ouvem podem pensar que estou sendo utópico, mas a utopia é que move os homens”, disse Luciana.
Após a morte de Mariz, quem assumiu o poder do estado foi Zé Maranhão, tão requerido pelo próprio Mariz para compor a chapa que ganhou as Eleições de 1994. Para Maranhão, foi o primeiro dos três passos no cargo mais alto da Política da Paraíba.
Onde ouvir o podcast
Além do Spotify, é possível ouvir o primeiro episódio da série "Governadores: A História do Executivo Na Paraíba", pelo Deezer e também pelo Google Podcasts.
Foi parte importante do projeto do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação, com o levantamento de arquivos históricos sobre o governador.
O Jornal da Paraíba, a cada episódio, vai trazer a história dos governos em edições especiais em texto.


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