O dia em que Juscelino Kubitschek driblou a espionagem do regime militar ao tomar banho de mar na Paraíba

O golpe militar no Brasil completa 60 anos. De acordo com o relatório da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba (CEVPM-PB), em 1972, escutas foram instaladas em hotel e uma equipe monitorou os passos de Juscelino Kubitschek.

Juscelino Kubitschek. Foto: Memorial JK

O funcionamento da estrutura de informação na época do regime militar no Brasil acontecia de forma articulada e planejada. Em 1972, essa estrutura entrou em ação na Paraíba, colocando em prática a Operação Juvenal. O objetivo era espionar o ex-presidente Juscelino Kubitschek durante uma viagem a João Pessoa. No entanto, JK conseguiu driblar a espionagem. Em alguns momentos, usou o banho de mar para conversar com o grupo que o acompanhava, dificultando a vigilância técnica.

Sessenta anos após o golpe militar, o Jornal da Paraíba mostra detalhes, a partir do relatório da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba (CEVPM-PB), que vão desde a vinda de agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) do Rio de Janeiro à Paraíba até a entrada no quarto de JK para instalar “escutas” nos telefones e no cabo do aparelho de TV.

De acordo com o relatório, a operação infiltrou agentes como funcionários do hotel e cooptou um empregado do alto escalão e um motorista da comitiva, bem como acompanhou JK nas ruas de João Pessoa e vigilância na praia do Poço. As transcrições das escutas telefônicas, que constam no relatório, apresentam apenas contatos do apartamento com a telefonista do hotel com algumas solicitações.

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Nos jornais que circulavam à época, quase nenhuma nota foi registrada sobre a chegada de JK na capital paraibana. 

Juscelino Kubitschek foi alvo da Operação Juvenal no regime militar
Juscelino Kubitschek foi alvo da Operação Juvenal no regime militar. Foto: Reprodução/CEVPM-PB

Passo a passo da espionagem

Logística 

O Serviço Nacional de Informações do regime militar deflagrou a Operação Juvenal em 26 de abril de 1972. Foi realizado um levantamento da comitiva que acompanhava Kubiteschek, ocupando cinco apartamentos no período do antigo Hotel Tambaú, em João Pessoa, de 29 de março a 2 de abril de 1972. 

A comitiva era formada por: 

  • Juscelino e Sarah Kubitscheck; 
  • Adolpho e Lucy Bloch; 
  • Felix e Wanda Schlesinger; 
  • Fernando Cunha Lima, irmão do ex-prefeito de Campina Grande Ronaldo Cunha Lima; 
  • Cesar Prates; 
  • e o violonista Dilermano Reis. 

A operação pretendia verificar quais os contatos que o ex-presidente, cujos direitos políticos estavam cassados, iria fazer no Nordeste brasileiro. 

Quatro equipes foram montadas: uma de segurança interna, outra de segurança externa e mais duas que controlavam a entrada de JK no hotel e outra responsável pelo controle. Além disso, a ação contra um alto funcionário do hotel para fornecer informações privilegiadas.

Juscelino Kubitschek teve escutas instaladas em quarto de hotel
Juscelino Kubitschek teve escutas instaladas em quarto de hotel. Foto: Reprodução/CEVPM-PB

Instalação das escutas

Após o reconhecimento da área pelas equipes, com agentes infiltrados como funcionários do hotel e um empregado do alto escalão, foram instalados sistemas de escuta na sala de apoio do apartamento. Eram dois microfones tubulares.

Vigilância 

A espionagem acontecia 24 horas por dia. Todos os passos de Juscelino Kubitschek foram mapeados e observados e, durante as estadias no quarto, todas as conversas foram ouvidas. No entanto, o máximo que a espionagem conseguiu foram conversas com a telefonista do hotel. Nas ligações, JK pedia água com gás e fazia outras solicitações de alimentação.

Banho de mar

Em duas das saídas de Juscelino Kubitschek do hotel, o ex-presidente e a comitiva seguiram para a Praia do Poço.

No dia 30 de março, a espionagem descreve que JK “acompanhado de quatro elementos não identificados se dirigiu à praia onde, dentro d’água e a uma distância de 50 metros aproximadamente realizou contatos por aproximadamente uma hora e meia”.

A situação se repetiu mais uma vez no dia seguinte: “permaneceu dentro d’água conversando com seu grupo, ficando afastado da praia cerca de 200 metros aproximadamente, dificultando a vigilância técnica”. Nesses momentos, nada foi ouvido da conversa entre o ex-presidente e o grupo que o acompanhava.

Relatório sobre espionagem do regime militar a Juscelino Kubitschek
Relatório sobre espionagem do regime militar a Juscelino Kubitschek. Foto: Reprodução

O que Juscelino Kubitschek fazia em João Pessoa?

A espionagem registrou a ida de JK aos hospitais Prontocor e Samaritano, mas sem detalhes; e à casa de Raymundo Onofre na praia do Poço. Nos dois dias em que a comitiva esteve na casa Raymundo Onofre foram registrados os banhos de mar.

Com relação ao acolhimento dado à comitiva de Juscelino Kubitschek foi identificado que tiveram à disposição dois carros pertencentes a Raymundo Lira e Haroldo Coutinho Lucena. Além disso o relatório afirma “que a permanência do ex-Presidente cassado no Hotel Tambaú, só foi possível devido a interferência do Secretário de Turismo do Estado Sr. Noaldo Dantas, que conseguiu aposentos para a comitiva”. 

Um dos desdobramentos indicados ao final do relatório do Serviço Nacional de Informações é que se apure “se houve participação do governador Ernani Sátyro nas facilidades postas à disposição de JK”.

Diálogo entre Juscelino Kubitschek e a telefonista do hotel.
Diálogo entre Juscelino Kubitschek e a telefonista do hotel. Foto: Reprodução/CEVPM-PB

Quem foi Juscelino Kubitschek?

Juscelino Kubitschek foi um político brasileiro, presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Ele nasceu em 12 de setembro de 1902 e faleceu em 22 de agosto de 1976. Kubitschek, conhecido popularmente como JK, é mais lembrado por suas realizações como presidente, especialmente por sua visão desenvolvimentista e seu plano de “50 anos em 5”, que buscava acelerar o progresso econômico e social do Brasil.

Algumas das principais realizações de seu governo são:

  1. Construção de Brasília: Uma das mais marcantes iniciativas de Kubitschek foi a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília, uma cidade inteiramente planejada no coração do país. A construção de Brasília foi um marco de modernização e desenvolvimento urbano.
  2. Desenvolvimento econômico: JK implementou políticas que visavam promover o crescimento econômico, incluindo investimentos em infraestrutura, energia e indústria. Seu governo é lembrado por um período de prosperidade econômica conhecido como “Era JK”.
  3. Política externa: Kubitschek também se destacou por sua política externa ativa, buscando estreitar laços com outros países e atrair investimentos estrangeiros para o Brasil.

Apesar de suas realizações, o governo de Kubitschek também enfrentou críticas e controvérsias, especialmente relacionadas a questões como endividamento externo e desigualdades sociais. Sua presidência foi seguida por uma série de governos militares, após o golpe de 1964. 

Por que Juscelino Kubitschek foi espionado?

Juscelino Kubitschek, o presidente do Brasil entre 1956 e 1961, era uma figura central na política brasileira durante um período conturbado. Durante sua presidência, ele promoveu uma série de reformas e programas de desenvolvimento, incluindo a construção de Brasília, a capital federal. 

No entanto, após o golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura no Brasil, Kubitschek tornou-se uma figura de interesse para o regime militar por várias razões:

  1. Suspeita de atividades subversivas: Kubitschek foi visto como um líder político que poderia potencialmente organizar resistência contra o novo regime militar. Sua popularidade e sua história como presidente poderiam representar uma ameaça à estabilidade do novo governo.
  2. Ligação com outros líderes políticos: Kubitschek tinha conexões com outros líderes políticos e figuras proeminentes da época, muitos dos quais eram contra o regime militar. Sua rede de contatos poderia ser uma fonte de apoio e mobilização contra o governo.
  3. Possível influência estrangeira: Kubitschek também era conhecido por suas relações internacionais e pela busca de apoio estrangeiro para o desenvolvimento do Brasil. Isso poderia preocupar os militares, que estavam vigilantes quanto a qualquer influência externa que pudesse desafiar sua autoridade.

Esses fatores contribuíram para a vigilância e monitoramento de Kubitschek pelo regime militar, que via nele uma ameaça potencial à sua permanência no poder.