Pesquisa da UFPB tenta envelhecer vinho com madeiras da Caatinga paraibana

Engenheiro está por trás de experimento que troca carvalho por madeiras do NE.

Itaragil Marinho, pesquisador que tenta envelhecer vinho com madeiras nativas da Caatinga
Itaragil Marinho, pesquisador que tenta envelhecer vinho com madeiras nativas da Caatinga

Uma pesquisa de doutorado em andamento na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) tenta envelhecer vinho com madeiras proveniente da Caatinga e assim criar um produto totalmente nordestino, com características 100% locais e que só poderá ser encontrado na região.

O responsável pela pesquisa é o engenheiro florestal Itaragil Marinho, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFPB. Segundo ele, o objetivo é introduzir valor, dar um sentido mais nobre à madeira nativa da Caatinga.

E, como o objetivo final é entregar ao consumidor um vinho totalmente regional, a pesquisa está sendo realizada a partir de um convênio com uma vinícola do Vale do São Francisco, localizada no município pernambucano de Lagoa Grande, que é vizinho de Petrolina e fica às margens do Rio São Francisco. A vinícola repassou de forma gratuita 200 litros de vinho para a pesquisa, que hoje estão armazenados no Laboratório de Biologia da UFPB.

“Aquela região, no coração do Sertão nordestino, vem se notabilizando por produzir vinho de altíssima qualidade. E queremos colaborar com isso, dando a possibilidade deste produto ser envelhecido em barris de madeiras de nossa própria região”, comentou Itaragil.

O desafio é enorme. O vinho é mundialmente consagrado por ser envelhecido em barris de carvalho, mas a ideia é propor alternativas para isso. Permitindo, de quebra, o enobrecimento da Caatinga, um bioma que praticamente só existe no Nordeste brasileiro. Para se ter uma ideia, o pesquisador explica que 90% do território paraibano é em região de Caatinga.

“Queremos fechar um ciclo. O Nordeste já produz bons vinhos. E agora queremos envelhecê-lo com uma madeira da própria região”, destacou.

Apesar das dificuldades típicas de uma grande empreitada, os passos até o produto final já começaram a ser dados. Ainda em 2019, o pesquisador conversou com técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Emprapa) do Semiárido, sediada em Petrolina. A partir da empresa, iniciaram diálogos com algumas vinícolas até que o convênio foi firmado com a Rio Sol.

O vinho, do tipo tinto e seco, chegou à UFPB em dezembro e lá foi armazenado em barris. Metade foi colocada em barris de amburama, cuja madeira foi retirada do município de Diamante, nas proximidades de Itaporanga; metade colocada em barris de craibeira, cuja madeira foi retirada do município de Santa Luzia. Na mesma época, na vinícola localizada no interior pernambucano, a mesma quantidade de vinho foi colocada em barris tradicionais, feitos de carvalho.

“A ideia é fazer uma comparação do vinho que já é envelhecido normalmente pelo mercado com o vinho envelhecido pelas madeiras da Caatinga para ver que diferenças, que qualidades, o vinho proposto pela pesquisa tem a oferecer”, explicou.

Vinho está armazenado atualmente no Laboratório de Biologia da UFPB

Itaragil Marinho disse ainda que as duas madeiras foram escolhidas por serem brancas, muito parecidas com o carvalho, mas com mais extrativos. “A expectativa é que isso pode interferir positivamente no sabor. Agregando ainda por cima compostos benéficos à saúde”.

O vinho será envelhecido por um ano, de forma que só em dezembro ele estará pronto. A cada quatro meses, contudo, haverá a retirada de amostras laboratoriais para analisar a evolução dos compostos bioativos e antioxidantes do produto. O primeiro desses ciclos, pois, deve acontecer no início de abril.

Está previsto também uma sessão de degustação em dezembro, ao fim de todo o trabalho, reunindo especialistas e consumidores comuns para provarem o resultado final de todo o processo. É a parte do que o pesquisador chama de “análise sensorial” dos vinhos envelhecidos em barris feitos com as duas madeiras nativas paraibanas. “Queremos com isso dar um indicativo para a indústria de vinho sobre a qualidade do produto envelhecido na UFPB, sempre comparando com o que a indústria já faz e já oferece ao mercado consumidor. E, quem sabe, introduzir a Caatinga neste nicho econômico”.

As possibilidades são imensas. Além do diferencial de se produzir um tipo de vinho apenas possível no Nordeste brasileiro, detentor exclusivo no mundo do que a Caatinga tem a oferecer, existe o próprio mercado de fabricação de barris, algo que o pesquisador diz ser possível a partir de um trabalho de manejo sustentável da Caatinga.

Afinal, o Brasil hoje importa milhões de dólares anuais em barris de carvalho vindos da França, dos Estados Unidos e do Chile. E, se a pesquisa resultar em respostas positivas, os barris com madeira da Caatinga pode explorar ao menos parte deste nicho.

Tanto é que algumas instituições percebem as possibilidades econômicas do empreendimento. A pesquisa, portanto, é financiada pelo Instituto Humanize e pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FunBio). “Vencemos um edital e recebemos uma bolsa dessas instituições”, finalizou o pesquisador.

Região do Vale do São Francisco produz vinhos de alta qualidade